Se eu tivesse vermelho na cor dos olhos

De NATÁLIA NUNES.

Vinte e quatro. O dia, a idade talvez, talvez há muito tempo atrás, e os segundos, se contasse, cairiam: vinte e quatro, provavelmente. Tudo agora travado vinte e quatro porque sim. Tirei os brincos com a luz apagada repetindo não, não, eu já dizia não tão serena que nem parecia que pegava fogo ainda ao te ver ouvir sentir cheirar quase comer tão inflamado você andava, é, já vinte e quatro dias no deserto, ou mais, nós, cada um invisível ao outro no mesmo ermo solitário que só sabe a pronúncia um do nome do outro, vôo de abutre que me tira o sossego, merda. Me deixa, me esquece – então por que estou aqui tirando esses brincos de te encontrar? Por que me arrastei lenta até quase seu colo hoje, dia tão quente, porque deixei com que você me pagasse três bebidas e expelisse faíscas tão doces e me pressionasse o amor que não consigo entregar mais, entende? Por que foi que fiquei quieta, sem molhar demais os olhos fixos no seu rosto pálido, te deixando me tocar um pouco na pele de dedos braços e cabelos boca não, apelar para as fomes que sabemos as mesmas, e limar mais nossos farrapos? Já cansei de repetir porque: sim, te amo sim, te quero sim, mas saia da minha vida pela porta ou te sacudirei pela janela, não cabemos mais juntos, chega. Tudo isso agora virou só um não e pronto, fim. Eu sempre tirava os brincos antes de treparmos. Isso depois que perdi aquele que eu mais gostava, depois disso eu passei a tirar, todas as vezes, para não perder mais nenhum. E não perdi. Era um dia vinte e quatro, te vi já te querendo, dois dias depois te tinha meu pra sempre, foi assim. Buraco negro engolindo tudo, nada sobrava além de nós, que brilhávamos acima de tudo, fosforecescentes, mas isso, só depois que uma carne encontrava e abria a outra, distantes, éramos água de alto mar, água tranquila se não vê tempestade. Eu queria tanto esquecer todas as datas, não sei pra quê guardo essas coisas, mas guardo, queria apagá-las como se apaga a luz, e que tudo ficasse impossível de ser visto, que eu não pudesse mais encostar nessas histórias, ao menos não desse modo tão certo e demarcado como eu faço. Que eu pudesse dizer não para o dia em que te conheci também, e que ele se fosse com você, que teima em não ir ainda, idiota. Idiota eu que fui te ver hoje, você tão lindo e gostosinho como sempre, me sobe logo gosto na boca quando te vejo, de perto ou de longe, me dá uma vontade de botar a mão, pegar fungar apertar, ai, eu sei que você gosta, mas eu também gosto, por isso que vagamos nesse mesmo deserto escaldante, porque gostamos demais de coisas parecidas demais, embora sejamos tão diferentes, como é que se vai embora das coisas que você é? Eu sou assim e você em mim tem meu gosto, merda, isso atrapalha tudo de te esquecer, como é que não se ama assim? Eu em você é você aceito e puro, como é que se larga coisa dessa? Somos dois malditos. Pára de me chamar, pára de me procurar pelos cantos, em outros corpos, você não vai me achar de novo. Perdeu-se tudo. Já gastamos nossos lençóis, nunca vimos o mar juntos, não suporto mais suas manias, enjoei do seu perfume. Não adianta tentar arrancar uma vida menos ordinária do meio das minhas coxas, está trancado o acesso – pra você. Já cedi antes, por amor tesão burrice, porque odeio ser eremita, já vivi anos demais dentro do ardor silencioso do deserto, cedi, apanhei, sangrei, tive uma puta hemorragia interna – e aprendi, inclusive a dizer não serenamente mesmo te querendo, mesmo querendo te arrancar a camisa nesse calor infernal, que se fodam os botões, te arrancar a roupa toda, só que eu não faço nada, além de dizer não. Aprendi. Eu ainda devo ter vinte e quatro vidas, quem sabe, para tentar ser feliz sem você. Eu não explico mais “por que você” nada, verdade, amo ainda, mas já bati a porta na sua cara, tchau. Pela vigésima quinta vez. Se você não vai embora, eu já fui.

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