01h28

De MAURÍCIO DE ALMEIDA.

Fica só mesmo aquele silêncio estranho da rua vazia, nada de carros nada dos meninos nada de nada como se muita coisa acontecesse mas nada pudesse ser visto, silêncio estranho da rua vazia que mesmo da janela de casa, bem de noite, quando a mãe dorme e o nenê dorme e o Rogério dorme
(− não enche)
dá medo de ficar sozinho de morrer sozinho, mas em casa eu fico quieto e presto bastante atenção para que ninguém morra, o problema é ficar aqui, com medo do escuro mesmo com o poste aceso, porque os portões estão fechados e os carros jogados e nada de nada, só eu e o Lazão e a gente fica quieto, eu mais quieto que ele, eu agachado bem no meio da noite, bem debaixo do poste para não morrer, e daqui eu vejo o Lazão deitado quase dormindo, mas ele não dorme, eu percebo, não dorme por causa da respiração muito pesada, igualzinho ao Rogério
(− não enche)
que não é meu pai (eu não sei como meu pai dorme), o Lazão deitado e com o pescoço cortado respirando como se fosse morrer, o Lazão também igualzinho à vó quando ela ficava na cama engasgando, esparramada como a boca muito aberta resmungando
(− maldita maldita)
e depois perdendo o fôlego, o Lazão respirando longo como se morresse, mas não morre, os olhos duros que não vêem nada iguaiszinhos aos da mãe todo dia toda hora, os olhos da mãe muito muito longe tão longe que nem ouvia ela mesma
(− maldita maltida)
falando igualzinho a vó
(− maldita maldita)
e só um dia, antes de morrer, a vó disse a frase inteira
(− maldita maldita vida)
que mesmo a mãe esquece quando reclama, e todos reclamam principalmente à noite, acho que por medo de morrer, mesmo eu ficando acordado olhando a barriga de todo mundo subir e descer, às vezes até colocando o dedo debaixo do nariz para ver se ainda sai ar, mas não adianta, todo mundo reclama
(− não enche)
menos o Lazão, ele fica deitado no chão com as quatro patas moles, o Lazão igualzinho aquela vaquinha de brinquedo que desmonta quando a gente aperta embaixo, quatro patas desmontadas, pescoço pendurado, rabo de lado, o Lazão não chora nem resmunga e às vezes nem tem os olhos duros, só fica deitado com a crina suja e eu muito quieto olhando pra ele, esperando alguém chegar, mas nem o Rogério
(− não enche)
que não é meu pai (eu não sei como meu pai dorme), nem a mãe
(− maldita maldita)
muito menos a vó
(− maldita maldita vida)
aparecerão, porque estão dormindo ou mortos ou os dois, só eu e o Lazão bem debaixo do poste com medo do silêncio estranho da rua vazia do escuro, a gente perto da árvore onde o Lazão sempre fica amarrado, comendo o capim seco da grama, eu vi, eu vi quando estouraram o rojão
(− não enche)
eu vi quando o Lazão pulou e tentou correr e quanto mais corria mais o nó da corda apertava o pescoço e quanto mais apertava mais o Lazão tentava correr
(− maldita maldita vida)
eu ouvi o único resmungo do Lazão forçando muito a corda, quase derrubando a árvore, o Lazão alucinado com os fogos que estouravam e eu parado feito poste, assustado não com o barulho mas com ele imenso quase arrastando a árvore, e então alguém gritando
− sai sai
queimou a corda e o Lazão não viu nada e correu pro córrego, mas eu vi os rojões, a corda queimada, a árvore quase ao meio, o capim comido e de repente todo mundo com outras cordas enforcando ainda mais o Lazão, quase afogando o cavalo na água
− vai vai
e até agora ele deitado aqui, nada de cuidarem do pescoço dele, nada de nada e mesmo de noite ninguém chega e por isso eu fico aqui, eu preciso ficar aqui sem dormir para não deixar que o Lazão durma (eu não sei como meu pai dorme eu não sei nem se meu pai dorme) não posso deixar que ele durma e, com os olhos duros, morra feito a vó.

 


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