[Ao som de corpos se esborrachando na calçada]

De ANDRÉ DE LEONES.

Aprecio atravessar a sala do meu apartamento e abrir a janela e contemplar os suicidas se atirando pelas janelas dos prédios vizinhos.

Muito embora eu resida em Goiânia, mais precisamente no Setor Oeste da capital de Goiás, mais precisamente nas proximidades da avenida Assis Chateaubriand, posso e gosto de dizer que a paisagem que vislumbro através da janela da sala do meu apartamento é uma paisagem paulistana: uma miríade de edifícios a sustentar um céu baixo, de concreto. Entre o céu baixo, de concreto, e o chão, também de concreto, os suicidas.

Eu atravesso a sala e contemplo os suicidas.

Às vezes (nunca comentara isso com ninguém até algum tempo atrás), tenho a impressão de que um ou outro suicida, enquanto cai, acena para mim. Quando isso acontece, sinto-me premiado, para não dizer abençoado.

Há suicidas de todas as formas e tamanhos. E eles são decididos, pelo que posso depreender de seus saltos. Jamais percebi quaisquer sinais de hesitação. Jamais aconteceu de a pessoa, corpo para fora da janela, ainda equilibrada sobre o parapeito ou sacada, fraquejar no momento em que olha para baixo e vislumbra a trajetória que seguirá. Eles, todos eles, sem exceção, eles olham para baixo com a mesma displicência com que as demais pessoas (as que ainda não saltaram) olham para um lado e outro antes de atravessar uma rua pouco movimentada e muito bem sinalizada.

Eu atravesso a sala e contemplo os suicidas, mas sempre estou só quando o faço. Mesmo quando Manoela está aqui, estou sempre só quando atravesso a sala e abro a janela e contemplo os suicidas.

Outro dia uma menina saltou. Jeans branco, camiseta azul, descalça. Os cabelos escuros soltos. Ela abriu a janela, sentou-se no parapeito da janela, percebeu que eu a observava, olhou para mim sem esboçar qualquer reação, não parecendo esperar que eu fizesse nada, sequer gritar, e saltou. Saltou olhando para mim. Saltou olhando fixamente para mim. E acenou. Acenou a poucos metros do solo. De fato, no momento do impacto (caiu na calçada), ela ainda acenava para mim. Não posso dizer com certeza (a distância entre o meu prédio e o dela não é tão pequena), mas penso que, além de acenar, ela também sorria. Para mim.

Sim. Ela acenava e sorria.

Certa vez, falei a respeito dessas coisas para Manoela. O problema é que coisas por demais concretas não apetecem a Manoela. Ela não acredita em nada que possa ser atingido. Não crê em colisões. O chão, por exemplo. Um corpo contra o chão. Suicidas para ela são uma realidade tão remota e insubstanciosa quanto acidentes de trânsito. Certo, expressei-me mal. Não é que Manoela não acredite em tais e tais coisas. Não. Minha irmã certamente não é louca. O fato é que tais e tais coisas não lhe dizem respeito. Pelo menos, não por muito tempo ou de forma duradoura. Ela não tem paciência para pensar a respeito. Naquela noite, por exemplo, ela me ouviu e perguntou:

– Ela acenava para você?

– Sim – respondi.

– Enquanto caía?

– Sim.

– De verdade?

– De verdade.

– Há tantos suicidas assim nos prédios vizinhos?

Pousei os talheres sobre o meu prato e balancei a cabeça afirmativamente.

– Uma enormidade – disse após um momento. – Uma infinidade. Basta ir até a janela e observar.

– Agora, por exemplo?

– Termine de comer primeiro.

Ela se levantou, circundou a mesa e, passando às minhas costas, colocou-se diante da janela.

– Nada acontece – disse pouco tempo depois.

– Vai acontecer.

– Quantos suicídios você já presenciou?

– Catorze.

– Vejo um acidente de carros. Lá embaixo, na Assis com a 9.

– Olhe para cima, querida. É de onde eles vêm.

Mas, conforme eu previra, ela logo se desinteressou e voltou à mesa.

– Nada. Querido.

– Um gesto desses – comentei algum tempo depois, enquanto esperava que ela terminasse de comer (ela sempre comeu muito lentamente).

– É um gesto? – ela me interrompeu.

– Sim, é um gesto. Eu chamo de gesto. Do que você chama?

Ela encolheu os ombros, a boca meio cheia, mastigando:

– De nada.

– Pois bem. Um gesto desses é um gesto extremo de desterritorialização. Ocorre que, em geral, e isso é Deleuze, acho, enfim, ocorre que, em geral, um esforço de desterritorialização implica em um esforço de reterritorialização. Se alguém sai de algum lugar, está a caminho, obrigatoriamente, mesmo que não saiba, de um outro lugar. Você, por exemplo, sai de Goiás e se muda para, digamos, o Paraná. Agora, esse gesto, o de saltar pela janela, esse gesto… ao saltar pela janela, há um movimento, claro, mas um movimento para lugar algum. Para o nada.

– Para o chão.

– A pessoa se desterritorializa, mas não há uma reterritorialização na outra ponta.

– Claro que há. Ela se reterritorializa no chão. No concreto.

– Debaixo dele, se fosse o caso.

– Debaixo do chão continua sendo chão.

Impossível discutir com Manoela. Às vezes, impossível era conversar com Manoela. Esperei que ela terminasse de comer e nos despimos. Deitados no grosso tapete que ocupa boa parte da sala, começamos a nos beijar. Ainda estávamos muito cheios e não fizemos nada além de nos beijar. Passado um momento, ela disse:

– Sua imaginação é terrivelmente enfadonha. Suicidas saltando dos prédios do Setor Oeste de Goiânia? E depois toda essa pseudice? Faça-me o favor.

Eu estava cansado, mas ainda tive forças para responder:

– Que está dizendo? Você sequer olhou para cima.


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