Identidade Brasil

De PAULA BERINSON.

O fato é que o bolso estava furado e a moeda escorreu rumo à sarjeta.

O vento da madrugada chegou com cheiro de nostalgia. Ouvi ao longe os sinos de minha infância e uma voz familiar:

– Laranja, quem quer? Tá docinha. Laranja, freguês?

O senhor quer conversar comigo, moço? Agora não posso. Tenho de trabalhar pra sustentar minha mãe e meus cinco irmãos. A vida é difícil, inda mais na cidade grande. Sabe, no interior de onde eu vim as coisas eram mais simples. Não é que a gente vivesse no luxo. Mas pelo menos não faltava o de comer. Trabalho desde pirralho: eu ajudava meu vô: a gente plantava umas roças lá onde a gente morava, uma cidade lá pras bandas de Brejo da Madre de Deus. Tão pequena que nem tem no mapa. Lá eu cresci.

Como eu dizia, a gente plantava umas roças e a sobra a gente vendia na feira. Quando era época de festa, principalmente São João, a gente aumentava a renda porque meu vô era chamado pra tocar, que ele tinha uma banda de pífano, e eu ia atrás dela, tocando as músicas que ele me ensinava. Ele tocava zabumba e triângulo e eu, uma flauta que ele fez pra mim. Quer ver? Desculpe, moço, fiz você chorar? Não era minha intenção. É, essa música é triste mesmo. Era minha mãe que cantava pra me embalar depois que viemos para a cidade grande e meu pai se matou de desgosto.

Aí minha mãe teve que se virar: até bolsinha ela já rodou. Meu vô bem que tentou trabalhar, mas ele tava velho e quem é que dá emprego a velho, moço? Depois que ele morreu, a gente passou o maior perrengue. Hoje sou eu quem sustenta a casa. Vivo do que consigo vender de laranja e mais um tiquinho que eu consigo catando lixo. Mas não me queixo não. Quando estou triste, toco minha flautinha de bambu e volto ao meu interior, viajando sem sair do lugar. E essa é a minha vida, seu moço. Diferente da sua. Eu tenho que acordar cedo e dormir tarde. Estudo? Tenho não senhor. Brinquedo? Que é isso, moço? Queria eu… Bom, agora tenho que ir. Com o dinheiro que vai sobrar, do que o senhor me deu, vou comprar o remédio da minha mãe, que está demente e por isso bate em mim. Mas eu não ligo. Com sua licença, moço, preciso acabar de vender as minhas laranjas e voltar para casa. Prazer em conhecer o senhor, meu nome é Rafael. Essa é a minha vida, doutor.

– Laranja, quem quer laranja? Tá docinha!


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