Memoricidade 4

De WESLEY PERES.

Em silêncio ou mesmo gritando, procuro o mapa da cidade. Mapa é memória: fibras, nervos, astrolábios sanguíneos que ligam minimamente meus afetos. Afetos implodem meu nome, desaparecem o quem, disso resulta que persigo a cidade no mapa, mas os afetos decretaram a mim a morte dos mapas e mesmo o território e seus átomos que sangram são só paisagem que se mira por desejo, miragem, miríades de coisas quebradas e que nunca pertenceram a uma coisa inteira. Esta mão que se escreve, cheia de destinos que são só desejos de mapa-quem-sou, ou seja, mapa nenhum, nem território que seja.

Repito-me para me convencer de minha memória, ou de que tenho algo que ver com ela. Inútil — há um divórcio entre meus afetos e as artérias de minha memória. Minha memória é o cadáver de um animal que nunca existiu, nada que ver com oquesou: oquesou soa-me como um chiste em aramaico. Pior que nem me orgulho nem faço coro com os que se orgulham de seus pedaços, dos que exibem seus remendos, suas cicatrizes, exibindo-as como aquela mulher logo ali nesta lembrança grudada em meus olhos, como aquela mulher que exibe o seu corpo escondendo-o em calça e blusa muito justas.

Minha tarefa autobiográfica constitui-se, sobretudo, de cantar sem canto, seco som de cadáver rangendo os dentes — minha tarefa autobiográfica é rejuntar a história da cidadegoiânia, mas só nos seus nódulos que se espalham sobre o acontecimento-um, cerne de meu canto sem voz, tão morto quanto o pai de Leide das Neves, Ivo seu nome, que sofreu de morteviva, morrido de culpa porque, mesmo não sabendo o que levava, por suas mãos que a beleza mortífera se encaminhou às vísceras de sua filha. Ivo descobriu que também as foices podem ser azuis:

Vivo, o tormento de habitar a suspensão entre vida e morte, a fratura imposta, o inferno é azul, o solazul do entrelugar, não é inferno, antes fosse, não é limbo, não é purgatório, paraíso muito menos, a não ser. A não ser que paraíso seja a beleza infernal e corrosiva de estar nem vivo nem morto, num lugar desconhecido por Deus e pelo Demônio. Não é a repetição da mesma vida, como temia Hamlet, não é a repetição de nada. Exílio de tudo o que é lugar, desadjetivação absoluta, e apenas um silêncio-voz é possível sair das bocas.


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