Simulações

De DHEYNE DE SOUZA.

O jornal caiu aos seus pés sem que percebesse de que aquilo se tratava. Ele havia apenas ido, apenas dito ou apenas brincado. Os Classificados ali procurando becos pelos seus dedos, arriscou um olhar, uma casa, uma desculpa. Mas ele não havia sequer deixado por onde correr pistas, por onde ir, em qual bairro. Algo mais barato, talvez não uma casa, mas um apezinho. Todo extremamente sufocante, todo extremo, todo ácido, rosnando quais palavras mesmo. Disse que não merecia ouvir aquilo, pensou que aquilo não ouvido não era mais que esquete. Um sobrado. Porque teria então o olhar da vizinha, da tia dela e dum sobrinho adolescente. Um canalha. Lembrava de ter dito ou ouvido ou questionado. A porta bateu tão forte que quase quebrou os portais da sua própria desconfiança à verdade, não tão perto, não tão forte, não tão preciso, não tão apertado. Não um apê. Um soluço. Não uma porta. Uma verdade. Agora não tinha mais. Precisava de algo mais barato. A vida é prática, meu bem. Talvez tenha sido um grito, de que direção? Da dele. Precisava ter ponto de ônibus para o sul, supermercado decente, locadora imprescindível, um guarda-roupa menor. Mas quando ele voltasse ouviria muita coisa. Mas ouviria mesmo, ou já teria dito, ou relegado. A vida, meu bem, é um sobradinho com o que vai sobrar do supermercado. Muito menos cerveja, agora vinhos. E tendo menos cigarros, mais livros. E mais insistência, talvez permitisse que entrasse. É pra se viver que se vive. E menos besteiras, mais música. E sem horários, sem jantares, sem conversas, sem truques baratos pra disfarçar o dia cinza. No último andar, pra riscar no céu um sorriso molestado. Uma trapaça, um atalho falso. Mas antes que ele voltasse queimaria tudo. Com paredes vermelhas. Seu cabelo ruivo, sua barba gasta, mal postas as suas toalhas, chinelos, varanda. Pra uma rede. E dormir. Agora dormir sem gentileza, sem préstimo, sem esperança de que aquilo acobertasse. A verdade, a verdade, meu bem, não existe. Não existe mesmo, seu covarde. Não existe nada. Uma porta mais resistente, pra que ela mesma não, quando, se. Um jornal não quebra vidro, bem dele. O jornal não faz passado. Guardava, foto por foto, mancha por mancha, preço por preço. Visitas. Não teria mais visitas mal postas sobre o tapete. Não teria tapete a casa seria o paraíso perdido. Inviolado. Onde ele nunca mais entraria. Assim que ele chegasse correria os móveis. Averiguando as peças, o azulejo, as tomadas. As torneiras, a descarga, os perfumes. Enquanto não saísse dali não mudaria nada. Porque ele chegaria como agora estava virando a chave. E como agora esqueceria tudo, controle, canais, boa noite. E como sempre engoliria a cena, e o que sobrou do jornal, simulado.


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