Em Dezembro, um dia desses

De SUSANA FUENTES.

No metrô, ao invés da música, hoje encheram nossos ouvidos com propaganda de ofertas para a casa. Joana esboça um sorriso: cada canto repicado de imagens à cata do consumidor de Natal, ainda mais em tempos de crise. Chegando ao banco, passa pela porta giratória sem impedimentos, por aqui já me conhecem, senão, do jeito que andam a desconfiar de qualquer um, mas têm razão, esta pobre senhora poderia querer tomar de volta o que lhe andam a roubar sem rodeios. Na fila, longa espera. Mas Joana não se entrega à chateação. No supermecado já tinha se esforçado para ficar calada, quando, com dois tomates na mão, diante da balança, reclamou do saco – como era difícil de abrir – e o atendente arrematou: ah, minha senhora, a gente tem que vir para o supermercado de bom humor. Assim é que se abre, tem que pegar no canto, não é no meio, é no lado. E essa agora, lição de moral, Joana olhou para o alto, e foi aí que fez um esforço danado para ficar calada. Não digo nada para não me aborrecer, pensou. Em seguida, um garotão forte colocou os limões junto com as laranjas que Joana acabava de pesar. Imagina, em vez de me ajudar, quer me apressar. Mas desta vez, Joana disse: é melhor tirar seus limões daí, senão eles vão custar o preço deles e mais das minhas laranjas. O rapaz teve que tirar os limões, e Joana sorriu para si mesma. Eu que não me cuide…

No banco, Joana continua a espera na fila de atendimento para assuntos diversos. Nas cadeiras, cada cliente apega-se à sua senha automática, o número no pedacinho de papel concentra os olhares, fixos sobre o painel de chamada, ou aflitos sobre o atendente à mesa. Só Joana ousa espiar para os lados: o primeiro atendente tem óculos quadrados, a segunda atendente por detrás da mesa cruza as pernas.

Da cadeira, Joana vê: uma moça é barrada na porta giratória. A moça esvazia a bolsa item por item. Desafia os nervos da guardiã de olhos pesados que parecem ter a mais plena certeza de si e suspiram impacientes, ai ai. Se fossem menos cansados, seus olhos iriam encher-se de compaixão ao explicar a outra moça apavorada que para sair não, não é preciso tirar o telefone da bolsa. A moça quer colaborar com os censores e as regras, e a guardiã repete: não, não, para sair não precisa. Mas a guardiã explica sem esboçar qualquer sorriso, seu aborrecimento com a vida mantém seus olhos na mesma expressão de antes. Nada se move no rosto, que deveria naquela situação revelar um mínimo de espanto. Na falta do sorriso, Joana olha para o outro lado.

Um funcionário de pé diante de uma das mesas de atendimento acaba de remexer a gaveta, por um minuto dá a impressão de estar voltando à mesa vazia. Não, vai-se embora e evita olhar para frente, onde a gente com esperança de que ele assuma o posto esquece o painel e cochicha. Joana segue a sua enumeração das coisas: o primeiro atendente tem óculos quadrados, a segunda atendente… Um guarda rompe a seqüência no saguão – dentro de uma cabine alta, um octaedro, está um guarda de quem só vê os olhos, e que por um instante se percebe olhado, e seus olhos, sim, naquele momento têm vida, piscam ao se verem reconhecidos. Joana, diante do ínfimo instante, retém o ar, os olhos sobressaem-se junto às luzes natalinas. Então suspira, mas quando olha para os olhos eles já não estão mais lá, encolheram-se rápidos e de novo são isso, discretos seres que vigiam.

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