Feliz Aniversário, meu amor

De JORGE BARBOSA.

Tudo que desejava era descansar um pouco. Depois de longos dez anos fora de casa e de muitos trabalhos e decepções por estas andanças, seria a melhor coisa a fazer. Pouca conversa, apenas a vontade descansar e retomar a vida. No local de origem, todo como era antes. Fernanda, que antes estava na escola, hoje vai a faculdade mas, sempre estudando, ocupando sua mente com outras coisas, tendo o mais que possível escapar da dura realidade de sua cidade, onde a coisa menos interessante para moças de sua idade era a missa aos domingos auxiliados por seminaristas afeminados, o máximo àquelas garotas já fartas de seus namorados sujos e puxa saco de políticos, afinal, tudo por míseros quarenta reais semanais. Edvaldo, como sempre, ocupado com o seu comercio, na verdade, com o seu mundo, fora dali não existe mais nada; já Salene, reclamando com os infinitos afazeres domésticos, não lhe restando tempo para saber das novidades fora de casa. Dez anos fora de casa e a única coisa que tinha mudado era a presença de um novo irmão, Rafael, que conhecia apenas por fotografias. Graças a Deus ele não se parece comigo, sou mais bonito, é claro mas, ao contrário de mim, é super esperto e não para um segundo, sempre aprontando alguma coisa. Fora isso, as paredes pintadas, piso, finalmente, novo. Os móveis já não eram os mesmos, com exceção da sala de jantar com uma mesa de dois metros de cumprimento, seis cadeiras mas, nos dias de festa cabia até doze. Ao lado da mesa, uma velha cristaleira; pertencia a minha avó, conservado sempre com o maior carinho pela minha mãe. Voltei a olhar para meu irmão. Dez anos, tentei recordar o que fazia quando tinha sua idade. Lembrei que aos dez, a casa não era àquela, a realidade era outra bem mais dura que a atual, cuscuz de manhã, de tarde e de noite, um caderninho simples e lápis para ir à escola; esperar pela merenda, uma das poucas coisas boas, até hoje. Lembro que tomávamos um leite caramelado com biscoito salgado. Não sei o que Rafael faz hoje, certamente, bem melhor do que na minha época.

Aproximava-se das nove horas da noite, troquei poucas palavras. Não existia disposição para conversas, queria apenas repousar, amanhã quem sabe?! Pedi licença para dormir e fui para meu antigo quarto que agora, tenho que dividir que para mim não era incomodo algum, o mesmo não se podia dizer de Rafael que inicia um pequeno escândalo. Os velhos dormiam no sofá. Como sempre, nada fizeram. Depois de algum tempo Edvaldo vai lavar as louças da janta e dona Salene foi arrumar o puleiro de Rafael e depois o dela. Aproveitei a oportunidade para pedir lençóis para minha cama, estava com pouca coisa, perdi a metade no caminho de volta. Fui surpreendido com a indiferença de todos nessa hora; era como se quisessem que fosse para um hotel ou outro lugar fora daquela casa. Fui tomado por um excesso de raiva.

– Porra de casa ! Agora tudo é feito em função deste moleque. Vou embora e nunca mais piso aqui.

Após de esta minha gritaria, Edvaldo vem correndo da cozinha com um copo na mão e sem dizer uma palavra o arremessa contra mim. Depois de alguns instantes…

– Vá embora daqui seu merda; fica dez anos fora de casa sem dar notícias e quando volta que dar uma de gostosão.

A cara do velho estava vermelha e, quanto mais ele falava notava o ódio crescendo na mesma proporção, resmungando, volta para o cozinha e traz outro copo, só que ao contrário da primeira vez que o jogou contra mim e não acertou, desta vez, a sorte não estava do meu lado.

– Vá embora daqui, você não é bem vindo.

Escutei sua voz longe. A preocupação era tirar o pedaço de vidro que ficou encravado na minha perna, um palmo abaixo da virilha. Um corte profundo. O sangue jorrava. Não queria acreditar no que estava acontecendo. Olhei em volta.

– Mãe, Mãe. Gritava sem força. As mãos frias. Lentamente, sentia meu corpo ceder. Sai quase me arrastando para fora de casa. Na rua, toda a vizinhança esperava ansiosa minha queda. Não esbocei reação alguma. Fui repousando a cabeça no calçamento, ouvindo as pessoas falarem cada vez mais longe

– Jorge, Jorge. O despertador já está tocando a meia hora.

– O que? Quê? Acordei assustado e bastante suado.

– Que foi menino? Tá bem?

– Nada, foi só um pesadelo, UFA! Por pouco. Lembrei de uma coisa:

– O quê? Perguntou Angela

– É o seu aniversário, parabéns!

– Que bom que você lembrou, agora vou trabalhar mais feliz

– Bom trabalho.

Ainda bem que foi tudo sonho. Voltei a dormir. Acordei duas horas depois, tomei um banho e fui trabalhar.

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