Melhor que domingo. Mesmo sendo domingo.

De ANDRÉ DE LEONES.

[A]
As digitais nas lentes. Miriam tirou os óculos e os encarou: dedos. Os seus próprios. Acontecia de ela, querendo coçar os olhos, sentindo necessidade de coçá-los, esfregar as lentes. No meio da rua ou parada na calçada esperando para atravessar ou nos corredores do colégio ou em um boteco na Mário Ferreira, ela esfregava, distraída, com as pontas dos dedos, não os olhos, mas as lentes dos óculos. E ela sempre se sentia ridícula. Ou quase sempre. Na sala de aula, falando sobre livros ou discutindo política, por exemplo, não. Em um boteco na Mário Ferreira, esfregando as lentes dos óculos quando queria esfregar os olhos, sim. E, de vez em quando, geralmente aos domingos, uma vontade horrenda de cair no choro, de (ridícula) estar morta. Não de se matar, mas de estar morta. As pessoas próximas comentando. Tão jovem, tão bonita, tão inteligente, tão. Bonita? Recolocou os óculos e ajeitou os cotovelos sobre a mesa. Era a única freguesa na sorveteria. A praça vazia lá fora. Tarde de Natal. Bonita? Branca, roliça, cabelos azuis. As pessoas próximas. Não há pessoas próximas. Tirou os óculos de novo e os limpou com um guardanapo. Um sundae. Colocou os óculos outra vez. Devia ter pedido um sundae, pensou. Limpos. Um sundae, não a joça de um milk-shake. Estar morta? Mas por que haveria de? Mão estendida na sua direção. Levantou os olhos, quase esfregando as lentes dos óculos novamente: uma senhora em uniforme de garçonete com a mão direita estendida na direção da taça esquecida sobre a mesa. Posso recolher? Ela olhou para a mão da garçonete e depois para a taça como se pensasse a respeito, decidindo se poderia ou não ter a taça recolhida. Pode. Me… me traz um sundae? Qual sabor? Ameixa. Um momentinho e eu já trago pra você. A garçonete girou sobre os calcanhares. O ruído irritante, de superfície lisa sendo arranhada. A mãe, ao gritar, fazia um som parecido. Gritando porque ela cortara os cabelos e gritando porque ela tingira os cabelos e gritando porque. Outro dia, saíra mais cedo do colégio e, não querendo ir para casa, desceu direto pela Dom Bosco e dobrou à direita na 24 de Outubro. Tentou se lembrar do que acontecera em 24 de Outubro em algum ano perdido da história bonfinense, mas nada lhe ocorreu. O aniversário da cidade era em cinco de outubro, mas não se lembrou de nenhuma rua que se chamasse assim. Ela entrou no primeiro salão de cabeleireiro que viu e deu sorte porque estava vazio. Corta bem joãozinho”, pediu. Sem dó. Tão curto que a mãe soltou um grito ao vê-la. Soltou um grito e, logo em seguida, disparou o bordão: Que bom que seu pai não está vivo para ver uma coisa dessas. Ao que Miriam sorriu, não perdoando: Mas ele está vendo, sim, mãe. Não é o que você sempre diz? A garçonete colocou o sundae sobre a mesa e perguntou se ela queria mais alguma coisa. Não. Obrigada. O susto da mãe foi bem maior quando, uma semana depois, ao chegar do banco, deparou-se com Miriam estirada no sofá lendo O estrangeiro, os cabelos tingidos de azul. Eu juro por Deus que não sei qual é a porcaria do seu problema. De onde estava, via a praça defronte. Vazia. A praça Americano do Brasil ou outra qualquer. Um busto no meio dela. Durante um certo tempo, foi moda entre a rapaziada roubar os bustos das praças e avenidas e transferi-los para locais inusitados, tais como alpendres e portas de botecos e tampas de bueiros. A professora no colégio dizendo que Americano do Brasil era o maior escritor da história da cidade e ela pensando que nunca lera ou ouvira sequer um verso do sujeito em lugar algum. Morto a tiros. Um marido traído? Um político ofendido? Michael David Chapman batendo à porta errada? Tomou o sundae, pagou e saiu. Ela foi descendo pela Aprígio José de Souza, a cidade vazia, domingo, Natal, e não tinha idéia do que fazer. Foi quando se lembrou de que Jonas estava sozinho em casa. Djalma Dutra, sem número.

[B]
Miriam tirou toda a roupa e Jonas tirou toda a roupa. Ela olhou para ele e viu seu pênis muito grosso e seu corpo muito magro e pensou neles, corpo e pênis, como duas criaturas distintas que, por conveniência, trabalhassem juntas. Não se beijaram. Ele a deitou na cama e a virou de bruços e olhou seu corpo, o traseiro enorme e o tronco magérrimo. Duas mulheres em uma: a parte de cima de uma pré-adolescente tranqüila de ares católicos (exceto pela cor dos cabelos, claro) e a parte de baixo de uma matrona quarentona fogosa e desbocada, do tipo que aplica joelhaços em engraçadinhos ou engraçadinhas pelos botecos. Não eram namorados. Ele beijou e lambeu as coxas e a bunda dela, e também o cu, e ela gostou disso. Melhor que domingo, ela pensou depois. Mesmo sendo domingo. Fizeram o meia-nove regulamentar, depois ela o cavalgou e depois ele a comeu por trás e então voltaram ao meia-nove e ela deixou que ele gozasse em sua boca, mas não engoliu: correu até o banheiro e cuspiu a coisa toda na privada. Tomou uma ducha e voltou ao quarto enrolada em uma toalha e se deitou na cama, ao lado dele que. De bruços, Jonas fitava a parede. Ainda não sinto vontade de engolir, ela disse algum tempo depois. Mas ainda quero fazer isso. Poucas fazem isso. Eu acho. Ela pensou no gosto da coisa e não lhe ocorreu nada que tivesse um gosto parecido. Era um gosto vazio, oco. Uma prima lhe dizendo que só engoliria a porra do homem que amasse. Um gesto, uma declaração de amor. Olha o que eu faço por você, meu bem. Tem gosto de domingo, pensou Miriam. Gosto de Natal. Gosto de fim.

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