Natal no Leblon

De LÚCIA BETTENCOURT.

E era outra vez aquela época do ano, em que as vitrines se enfeitavam com luzes e brilhos, quando as pessoas saíam às ruas com a urgência de demonstrar que a paz entre os homens de boa vontade só poderia ser alcançada com muita grana.

No Leblon, até os restaurantes entravam no clima natalino, tornando-se de repente, ainda mais cheios que de costume, com garçons mais apressados do que nunca.

Crianças passavam choramingando, cachorros rosnavam, amarrados nos canteiros na frente dos supermercados. Gigantescos ícones de papais noéis tropicais riam, zombeteiros, das pessoas que passavam suarentas e carregadas de sacolas, como saúvas apressadas com suas cargas.

Ela estava parada no sinal, esperando sua vez de passar. Quando o bonequinho verde se iluminou, ela não confiou, e olhou temerosa para os carros e motos, a fim de perceber suas intenções. Sim, desta vez eles pararam e ela pôde atravessar a rua com calma. Caminhou nas suas sandálias gastas e macias até a livraria, e ficou olhando com cobiça as capas de revistas coloridas, anunciando as roupas de festas, os cardápios de festas, os lugares de festas… Tudo carregava esse nome encantado; “festas”. Seria bom ter uma festa para ir, ela pensou. Uma festa cheia de pessoas queridas, em que as conversas fluíssem com facilidade. E onde lhe apresentassem novas pessoas, interessantes, pessoas que não falassem sempre as mesmas coisas, que soubessem contar piadas com graça, que a olhassem com aprovação e a escutassem com interesse, que lhe contassem histórias novas, de coisas muito antigas, como amizade e generosidade… Esbarrou num braço que se esticava para pegar uma revista.

Desculpe! Ela se apressou a dizer, mas o homem também dizia “desculpe”, com uma voz conhecida e um sorriso meio tímido. Ela olhou boquiaberta para os olhos claros que a fitaram rapidamente, e depois se desviaram. É ele, pensou. Meu Deus, é ele mesmo, e eu não tenho nada o que dizer! Ah, se eu acreditasse em Papai Noel, agora seria a ocasião de fazer o meu pedido de Natal: algo interessante para dizer. Algo inesperado, que o obrigasse a prestar atenção em mim! E ele já ia se virar, quando ela perguntou:

– Você acredita em Papai Noel?

Ele pestanejou, encarando-a, e ela sentiu a luz que saía daqueles olhos transpassarem seus pulmões, deixando-a sem ar.

– Você acredita? – devolveu ele.

– Acho que agora acredito. Acabo de ganhar meu presente. E você?

Ele riu e sacudiu a cabeça, deixando-a sem saber se era um sacudido de sim ou de não. E ela percebeu que ele escaparia, se não conseguisse manter a conversa , mas nada cruzava seu cérebro. As ondas elétricas estavam em calmaria, e seus neurônios boiavam soltos no vácuo de pensamentos e de palavras.

– Por favor!, pediu.

– Sim?

– Posso tirar uma foto com você?

– Hum… OK.

– Então venha.

– O quê?

– É que eu não tenho máquina aqui comigo. Vamos ali no outro quarteirão, que eles tiram fotos na papelaria.

– Ah, não vai dar…

– Mas você disse que …e é tão importante…é meu presente de Natal! Como vou poder provar aos meus amigos que Papai Noel existe se você não se deixar fotografar ao meu lado? Por favor! Please! Je vous em prie!

– Shh… Você está falando muito alto! Estão começando a olhar para a gente.

– Se você viesse comigo, eu te contaria uma coisa muito importante.

– Que coisa importante?

– Ah, uma coisa importantíssima!

– E quem disse que eu quero saber?

– Mas é claro que você quer saber! É da natureza humana, o desejo de saber. Eu lhe digo que tenho uma coisa importantíssima pra lhe contar, e você fica preso a isso. Agora, se eu não contar, você vai pensar em mim para sempre – o que será que ela queria me dizer? Imagine, daqui a algumas horas, você deitando a cabeça em seu travesseiro, fechando os olhos, e aí você lembra que eu não contei aquilo que era tão importante. Tão importante que foi um acaso que me colocou assim no seu caminho para que você soubesse… E você se recusou. E nunca mais vai descobrir do que se trata. E você nem sequer sabe o meu nome, não vai poder me procurar. Você não sabe de nada sobre mim, não pode nem ao menos contratar um detetive particular…

– Está bem, eu te acompanho. Mas o que é que pode ser assim tão importante?

– Ahá! Nessa eu não caio. Primeiro a foto, depois a revelação.

– Acho que é chantagem, isso que você está fazendo…

– Você não quer saber o meu nome? Meu nome diz muito sobre mim. Sou Cassandra, mas meus amigos me chamam de Sandra, é mais suave.

– Muito prazer, eu sou…

– Eu sei quem você é! Imagine, se você precisa se apresentar. Seus olhos são o seu cartão de visitas. E, além do mais, com um nome como o meu, eu só poderia saber, não acha? Você sabe quem foi Cassandra?

– Aquela lá de Tróia?

– Essa mesma. Olhe, é aqui. Vamos entrar. Moço. Eu quero tirar um retrato duplo, daqueles maiores, tamanho de passaporte, sim? Olha, tira aí umas cinco poses, para eu escolher a melhor. Imagine se saio de olhos fechados, ou se você sai de olhos fechados. Ah, é preciso garantir, não acha? Não, não ria, isso é muito importante para mim. Sabe, com um nome como o meu, eu preciso de provas. É a minha maldição: as pessoas não me acreditam, embora eu só fale a verdade…

– É, Cassandra conseguiu seus dotes de adivinha usando truques, por isso o deus Apolo a castigou. Ela podia prever o futuro, mas as pessoas não acreditavam no que ela dizia…

– Assim, cola o rosto no meu, vai! Seeex!

– Que história é essa de sex?

– Ah, isso é a teoria de uma amiga minha: quando a gente diz sex, ao invés de cheese, nossos olhos brilham e a foto sai muito melhor!

-Interessante, essa teoria. Sex!

– Está vendo? Olha só como seus olhos estão brilhando! E seu sorriso está muito mais natural… Vamos, mais uma. Seeex!

-Agora já chega. Chegou a sua vez de cumprir o prometido: diga aí, o que é tão importante assim?

– Você acaba de conhecer a mulher da sua vida! E vai se casar com ela!

– Ora, que bobagem! Isso é uma invenção sua…

– Eu sabia que você não ia acreditar… Os troianos também não acreditaram que ia haver guerra… Agamemnon não acreditou que ia morrer…Eu te avisei, é o meu nome…

– Ah, não!

– Você pode não acreditar, mas isso não significa que não vai acontecer…

– Essa não!

– Acho melhor você ir facilitando as coisas. Por que não vamos jantar hoje, e começamos a nos conhecer melhor? Porque está em seu destino, não há como escapar… Hoje, às nove, lá mesmo na livraria? Depois a gente decide para onde vai. Tome, leve esta foto aqui, é a que saiu melhor. Leva, vai. E vai praticando uns beijinhos nela, para hoje de noite tudo sair certo…

– Você é incrível!

– Eu sei! É do nome. Mas, olha!

– O que?

– Acho bom você começar a acreditar em Papai Noel, também…

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