Noite feliz

De MAURÍCIO MELO JÚNIOR.

Só se deu conta da noite quando acenderam as luzes. O matulão de sonhos que trazia na chegada furara, esvaziara por si mesmo, fora jogado fora por inutilidade.

Benedito de Oliveira no batismo, virou Benedito do Cavaco, Benedito do Pagode, mas nada de grandioso construiu além de casas e edifícios. Pedreiro de empreitada, finda uma obra, findava-se a fartura. Viveria – cavaquinho na mão – como Deus lhe fosse servindo. Paulistano da gema. Trazia em si todos os sambas de Adoniran Barbosa, parcas e pobres composições próprias e já nenhuma esperança de cantar no rádio, aparecer na TV. Nem mesmo a roda de samba que abria na Praça da Sé reunia gente, apurava o de comer. Uma miséria.

Bebeu em cachaça os últimos trocados e se deixou dormir no banco desconfortável da praça. Acordou com o acender das luzes, a iluminação feérica desenhando os contornos dos edifícios, sinos, renas, uma tradição em vermelho e branca neve artificial, a Catedral de portas fechadas e pela calçada uma gente apressada, correndo para as famílias. Benedito, feliz por não terem roubado seus sapatos, seu cavaquinho, a carteira de trabalho, sentiu as primeiras presenças do frio.

Viu o dono do bar fechando as portas do estabelecimento. Correu com pouca urgência. Pediu para usar o banheiro. Lavou o rosto e mijou com prazer. Saiu sem ter qualquer perspectiva. O dono do bar lhe entregou um embrulho. Um presente de Natal, disse sorrindo enquanto descerrava a última folha da porta de ferro. Feliz Natal, ho, ho, ho. Seguiu também para a família e Benedito, o que não tinha mais ninguém, sentou num banco esperando a praça esvaziar de vez. A solidão, o vazio, o deserto, a cidade com não sei quantos milhões de habitantes e ele, um paulistano da gema que nunca se ausentou daquelas ruas, sozinho.

Encontrou um cigarro amassado no bolso da camisa. Acendeu como pôde e voltou a olhar, além da fumaça, as luzes da praça agora já totalmente vazia. Um paulistano da Freguesia do Ó, onde aprendeu a tocar e deixou para trás um pai envelhecido de quem há muito não tinha sequer notícia. A mãe? Uma mariposa. Nunca viu. Também não mais voltou praquelas bandas. O passado, como o futuro, não lhe servia de nada. Saiu para fazer a vida, construir fortunas e famas, mas como nada lhe caíra nas mãos, agora tão vazias quanto sua própria alma, preferiu se limitar às ruas do centro.

Não tinha amizades, sinceras ou não, nenhum Arnesto – em tudo lhe rodeava o signo do provisório –, mesmo assim, em seus limites, conhecia momentos de felicidade. Iracema, eu nunca mais cantei. E Iracema passava em bandos pela Sé. Loura, morena, índia, negra, cafuza, a japonesa que vendia frutas, a libanesa dos tapetes, mulheres inalcançáveis caminhando na possibilidade de seus dedos, na impossibilidade de suas conquistas, além dos limites de sua ousadia. A felicidade de contemplar o belo e guardar em si todos os desejos.

Mais uma noite, uma noite de dores. Tentava compor um samba quando lembrou do presente. Abriu. Uma garrafa de cachaça e duas coxinhas bem gordurosas. Tomou um gole e mordeu um dos salgados. Sem uma maloca, muito menos saudosa, para onde voltar, passaria a noite, feliz, contando as vezes que o Papai Noel de luzes subia por uma escadinha até o topo de um edifício. Ali sumia e voltava a aparecer na base da escada. Uma, duas, três, ene vezes.

Bebera um pouco mais da metade da garrafa e já perdera o trem das onzes quando a Catedral abriu as portas e o sino chamou os fiéis para a Missa do Galo. Passou quase uma hora até que eles, os fiéis, começassem a chegar, a tomar os assentos.

Benedito deixou a garrafa vazia junto ao pé do banco, deu bom dia à tristeza e entrou na igreja. Ali pelo menos teria um pouco de conforto. Sentou no primeiro lugar que encontrou. Assistiu à chegada das autoridades – prefeito, governador, senadores, secretários, vereadores – e ao início da celebração. Mas tudo foi turvando, turvando, turvando.

Levantou brandindo o cavaquinho e gritando um discurso de protesto contra a carência de educação, ninguém mais respeitava os artistas do povo, o samba acabava pela pobreza de cadência, pela melodia sempre a mesma e quem tinha valor real ficava jogado nas praças, sujeito ao frio, à fome, à repressão policial, sem oportunidades, sem respeito, sem amor-próprio, como sobreviver num país tão injusto?, como senhores da lei, homens de bem, bem vestidos? Cadê Adoniram? Cadê Germano Mathias? Cadê Pedro Caetano? Na Capoeira do Arnaldo Paulo Vanzolini nos acudirá, Paulo Vanzolini nos acudirá. Um segurança lhe pediu calma e mais ele gritou e protestou. Ao pobre que sonha dignidade oferecem a mão policial, matam as esperanças, negam agasalho e no Natal distribuem migalhas de pão e afeto, no carnaval cantam nossas músicas, a música do povo, para depois voltarem felizes às profundezas do próprio umbigo. O homem tentou tirá-lo dali à força e Benedito mostrou uma faca. Outro segurança o dominou prendendo-lhe pelas costas. Me solta, São Paulo. Me solta, São Paulo. Me solta, São Paulo Gritava e esperneava enquanto o levavam para fora do templo, para dentro de um camburão, para uma cadeia onde dormiria a paz dos justos. Talvez conquistasse a liberdade na ressaca do dia seguinte. Os homens pios, os homens de bem voltaram à reza, pediram justiça para o mundo e proteção para todos nesta noite feliz, noite do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Benedito acordou com um leve balançar em seu braço. Moço, a missa acabou e a gente precisa fechar a Catedral. Passou a mão no rosto e saiu do templo. A madrugada ia alta. A praça deserta, as luzes. Sentou em seu banco costumeiro. O dia logo viria. Sem cachaça nem esperanças, voltou a dormir.

A noite, de sorte, tivera seus sonhos, suas felicidades.

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