O natal da Titia

De DANIELA MENDES.

Fim de ano, época de balanços. Sou medíocre – era o tema que me tornava melancólica hoje à tarde. Ao reconstruir meu passado, empurrando um carrinho de compras na loja americana, percebi que era tudo como retalhos mal costurados, me fazendo duvidar se eu aproveitava a vida por inteiro. Com mania de mosaicos, catando caquinhos ali e acolá, sou presa fácil da estética que faz de mim um corpo estranho na multidão.

Dêem uma boa olhada nisto aqui. Vermelho e verde não combinam, as músicas são horríveis e há muito brilho artificial em tudo… Bom mesmo só as frutas da estação. Ao contrário da culinária de fogão. A “sofisticação” e variedade dos pratos tornam a comida enjoativa tanto quanto a disputa gastronômica das matriarcas. E as bebidas? São raros os que trazem um bom vinho e a maioria confunde champanhe com cidra. Daí resta a cerveja. E a ressaca disso pode provocar uma auto-comparação com a Lade Di. Depois que a família se abraça, tal qual estivesse numa novela do Manoel Carlos, num xixi familiar com uma tia ou prima, escuto as mais vis mesquinharias. Mas não vou me aborrecer porque, neste ano, encontrei redenção.

Voltemos às compras de última hora. Enquanto eu escolhia o presente do meu amigo parente, fui encontrada por um oculto amante. As coisas não terminaram bem entre nós. Aquelas picuinhas que acontecem quando a gente resolve enfiar amor onde ele não cabe, entende? Mas é natal, e se não o fosse tudo terminaria num cumprimento de sobrancelhas. Mas eu sou cristã, então justifica parar para perguntar dos filhos e etc. Ignoro se foi o meu decote, só sei que renovar números de celulares é a mesma coisa que trocar votos. E quem há de negar? O padrinho do meu sobrinho que insiste em colocar “naturalmente” a mão na minha perna toda a hora que a esposa vai ao banheiro?

A respeito disso reclamei com mamãe, que disse sem eufemismo que eu era vulgar, apontando para o meu celular preso no sutiã entre os peitos. Ela era insensível desde que eu nasci, o que tornava inútil qualquer tentativa de explicar a esperança viva entre meus seios. Por isso, saí leve sobre meu salto com tom de desprezo e fui para o banheiro acrescer mais uma camada de batom vermelho-café.

Nem dera duas horas da madrugada como ele prometera e o celular mais todo o resto vibrou. Eu imaginei que ele ligaria uma hora além do combinado. Sou compreensiva, pois sabia como poderia ser complexo aquele compromisso familiar de fim de ano. Mas ele resolveu me surpreender. Chegou antes do combinado.

Fingi que ia à varanda tomar um ar. As crianças estavam tão eufóricas que foi fácil escapar pela calçada até a esquina onde estava o carro dele. E lá dentro do fusca se encontrava meu Noel, vestido todo de cetim vermelho com uma bota preta. Porém, sem a barriga de travesseiro e a barba de algodão, que notei foi abandonada no banco traseiro – sinal de mesma urgência minha. Então, irmanados por um sentimento que jamais tivéramos no passado, eu já não duvidava que vivesse minha vida por inteiro.

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