Rabanadas

De GERUSA LEAL.

Desceu do ônibus e atravessou a rua. Era uma tarde quente. Nem percebeu que estava parado em frente da casa. Ouviu a voz da mulher chamando pelo filho. Já fazia tanto tempo. Baixou a cabeça, virou-se para seguir seu caminho e parou outra vez.

Naquele dia o cachorro perseguiu o menino latindo. Apanhou o primeiro objeto que a mão alcançou. Mas não precisou usar, o garoto havia subido na árvore onde acabara de pendurar a gambiarra, arrastando no tombo parte da fiação e fazendo várias lâmpadas coloridas espatifarem-se no chão.

– Droga. Vai cortar o pé, infeliz.

O moleque correu para dentro de casa.

A mulher está de pé junto ao fogão, os cabelos presos por um lenço. Parece que só enxerga as panelas. Prepara o almoço mas já cortou o pão para as rabanadas.

Escuta o arrastar dos chinelos e vê uma blusa desbotada se aproximando. Ela sempre sabia quando ele chegava e vinha encontrá-lo no portão. Levantou a cabeça e olhou ao redor como se não a tivesse visto.

– Já vou abrir.

Deu um passo para o lado parou e olhou a mulher. A blusa desbotada sobre a saia larga de estampado florido também já desmaiado. Não acreditava em violência. Não devia ter feito aquilo.

Caminhava devagar, o rosto sem expressão como se até as rugas houvessem esquecido a própria história. É de estatura mediana mas os ombros arqueados a fazem menor embora a firmeza do olhar afaste qualquer impressão de fragilidade. Ele tenta se lembrar de como ela era e só consegue ver uma jovem numa foto amarelada de casamento. Uma jovem que parece nunca ter sido ela.

– Venha, entre.

Despregou-se do chão e passou para dentro do jardim. O rosto dela ganhara um aspecto definitivo feito o das esculturas no museu onde ele ficara circulando enquanto esperava que a tarde passasse e não desse mais tempo de ir. A primeira vez fora pedir que lhe perdoasse e se o enxotasse mal o visse isso não o surpreenderia.

Limpava os pés no capacho com os olhos entre o chão e a guirlanda verde com um sino dourado pendurada na porta.

– Entre.

Sentou-se à mesa no canto da sala enquanto ela, arrastando os pés, sumiu no corredor que dava para a cozinha de onde vinha o cheiro doce. Serviu-lhe duas e ocupou a cadeira em frente, calada, as mãos cruzadas sobre a mesa, olhando ele cortar pedaços da rabanada e levá-los à boca.

Quando acabou, ela levantou-se, apanhou a travessa com o restante do doce, o prato vazio e lentamente sumiu outra vez no corredor. Ele imagina que assim como na sala, no restante da casa permaneça tudo igual, os mesmos móveis, nos mesmos lugares, os mesmos quadros pendurados nos mesmos pregos nas mesmas paredes, a mesma árvore no quintal.

Nunca foram de conversar muito mas se diziam o indispensável e passavam um pelo outro sem evitarem se esbarrar. Naquele dia ela queimou-se na panela de feijão que se esparramou por todo o chão da cozinha. Ele havia entrado atrás do menino com o chinelo na mão e quando ela se abaixou para limpar ergueu-a pelo braço xingando-a de estúpida e perguntando e agora o que nós vamos almoçar?

Ficaram as marcas na pele alva do braço e ele saiu batendo a porta. Sem coragem de contar que fazia um mês que passava os dias perambulando pelos parques, igrejas, museus, depois de conferir mais um anúncio de emprego onde não se interessavam por seus serviços.

– Beba a água. Está gelada.

Quando chegou ela não estava e só uma semana depois recebeu o bilhete onde dizia que estava trabalhando na casa de uma família e o menino ficava com ela. No mesmo bilhete e pelo mesmo portador escreveu que voltasse para a casa, não a incomodaria.

Secou os lábios com as costas das mãos. Quando ela voltou da cozinha já estava de pé ao lado da porta. Caminhou atrás dela que fechou o portão e quando já voltava para dentro ele girou sobre os calcanhares. Ela parou.

– E o menino?

– O menino está bem.

Entrou na casa e ele atravessou a rua para apanhar o ônibus.

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