(Sem título)

De WILTON CARDOSO.

fim de mundo fim de ano fim de festa fim de tudo o caminhão disfarçado de trenzinho as luzes de natal misturadas ao burburinho da feira da praça entrando no corpo pelos buracos do corpo a xuxa canta no último volume a música chacoalha o corpo chacoalhado pelo trem chacoalhando-se no asfalto escorrendo dos dedos até os confins do corpo de luzes e pedras e piche e cimento glóbulos rodam pelas artérias pulsos rolam pelo sistema nervoso dos fios e postes trespassando-se incessantemente tudo se conecta tubos se impregnam elétricos mecânicos corpos se imbricando tanta gente tanta mente tudo mente serpente envolvente escorrendo a língua de veneno num rastro de veneno bifurcado em mil caminhos serpeando as veias da pele transbordando o meio fio sem meada até o fim sem fim dos pulsos neurais das entranhas dos intestinos dos interstícios imperceptíveis por onde rola a saga sem fim do trenzinho cheio de crianças e pais atordoados por músicas e luzes e gentes e automóveis pensamentos desatentos preocupados cheios de lamentos cheios de sonhos cheios de vidas que se vão cheios de vãos cheios que navegam o mar de outros cheios cada vez mais cheios e nunca se bastam sempre se arrastam se expandem se preenchem de si se desdobram de si se obram de si se desconhecem de si diferentes de si as crianças olham em todas as direções apalpando o mundo com os olhos cheios de fascínio bebendo a música quente na noite quente da máquina quente de fazer dinheiro sobre rodas e sons e luzes e asfalto rolando frágil no frágil corpo infante encharcado de fluidos e feixes de luzes e sons de cantos e encantos de granas e gramas de ervas e vermes proliferando-se nas frinchas do asfalto dos corpos dos infantes de onde brotam mais infantes vermes inflando a multidão de vermes tomando cada canto do corpo infiltrando-se nos poros da pele do asfalto do solo até o estômago todo tomado feito feto de vermes vendo-se vendendo-se doando-se ao pulsar deslizante dos corpos vagando de corpo a corpo num fio sem fim de encanto de corpos vibrando enfileirados no trenzinho que se encosta ao meio fio a música cessa e desce um fio de gente e outra fila espera pra entrar e encher até transbordar e recomeçar a rodar

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