12h53

De MAURÍCIO DE ALMEIDA.

O que fica é uma tristeza, apenas uma tristeza e nenhuma explicação, alguma coisa como um ranço na boca, um desconforto no corpo procurando jeito, uma incoerência ou duas que insistem na lógica e, além disso, quase quieta como o mundo que dorme, uma espécie de angústia muito aguda ao sentir a madrugada escoando cada vez mais rápido pelos vãos da janela, pelos móveis da sala até alcançar o chão e sumir debaixo dos meus pés enquanto eu continuo sentada sem dizer nada porque só fica mesmo essa tristeza que, eu sei, não é tristeza, mas coisa do corpo (uma incoerência ou duas), então espero pelo efeito dos três ou quatro comprimidos sem medo da noite escoar pela sala inteira, sei que três ou quatro comprimidos (não, nada suicida) conterão meu corpo antes do dia, antes do Rogério acordar e da criança acordar e do mundo acordar, antes talvez do menino voltar para casa, muito antes de todas as coisas acontecerem estarei dormindo porque não é tristeza nem ranço nem angústia (com a mãe, sim, era tristeza, ranço e angústia), comigo é coisa simples, problema biológico, deficiência de aminas biogênicas, dopamina, serotonina e noradrenalina, nada mais, só uma disfunção dos neurotransmissores (nada de tristeza, ranço e angústia), desequilíbrio de receptores serotonérgicos, bagunça na neurotransmissão (são muitíssimos receptores e nenhuma tristeza), por isso, mesmo que eu fique sentada na sala sem dizer uma palavra sequer, mãos soltas, pés inquietos, olhos perdidos, mesmo assim em nada me pareço com ela (a mãe tristeza, ranço e angústia), porque eu só preciso esperar as alterações nos receptores noradrenérgicos, o efeito nos receptores beta-adrenérgicos pós-sinápticos e pronto, nada da madrugada escoando nem do mundo inteiro dormindo menos eu, mas para ela, que era triste, não adiantava esperar com as mãos soltas, os pés inquietos e os olhos perdidos durante a noite inteira, porque quando ela ficava exatamente como eu, em silêncio como se não soubesse o que dizer (o problema não eram as palavras, mas a falta do que fazer com elas), nenhum efeito acontecia, ela inútil no sofá da sala com aqueles olhos imensos engolindo a madrugada inteira (que provavelmente escoava muito rápido), ela muda pensando um turbilhão de coisas (maldita maldita vida) e me deixando sozinha, quer dizer, jogada, quer dizer, esquecida, quer dizer, como se eu não existisse (uma incoerência ou duas), porque eu existia e ficava agoniada com a madrugada escoando pelos móveis da sala (nada de tristeza, ranço ou angústia), alcançando o chão e sumindo debaixo dos pés dela, eu agoniada com o mundo inteiro dormindo menos ela, que, tomada por um turbilhão de pensamentos (não, nada suicida), não me via tampouco sabia do ranço na minha boca ou do desconforto do meu corpo procurando jeito de ficar por perto mesmo que não pudesse fazer nada, e eu não podia, mesmo que não pudesse explicar dopamina, serotonina e noradrenalina, e eu não podia, então ela alheia a tudo (maldita maldita), muda no absurdo daquele silêncio amargando um ranço, um desconforto, tenho certeza, um ranço, um desconforto e uma angústia, esperando por algo quando nada aconteceria, mas eu não, eu espero os receptores noradrenérgicos, eu espero os receptores beta-adrenérgicos pós-sinápticos (são muitíssimos receptores e nenhuma tristeza) e então o Rogério acordado, a criança acordada, o menino acordado, o mundo inteiro acordado e ela muito (muito) distante de mim, ela muito (muito) diferente de mim, ainda que agora, enquanto espero e a madrugada avança, eu não saiba o que dizer (mãos soltas, pés inquietos, olhos perdidos) e fique esse ranço, esse desconforto, essa tristeza que persiste sem explicação.


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