Através do espelho

De LÚCIA BETTENCOURT.

Quando começaram a surgir as primeiras rugas ela descobriu sua paixão por espelhos. Antes, mal tinha tempo de se olhar naqueles objetos mágicos, que devolviam a imagem de uma mulher geralmente descabelada, de olhos distraídos, sempre ocupada em tarefas prosaicas, como escovar os dentes ou pentear os cabelos rebeldes. Na saída de casa, um espelho grande confirmava a propriedade da roupa, ou suspirava impotente ante a desorganizada combinação de peças escolhidas ao acaso.

Agora, suas manhãs livres de compromissos lhe ofereciam tempo para sentar-se em frente a um espelho e entregar-se a minuciosas investigações. Seu rosto, antes quase um desconhecido, era estudado nos mínimos detalhes. Seus gestos, multiplicados e invertidos, eram observados atentamente. Ela ficava horas vagueando de um espelho a outro, observando-se e especulando. Sabia que, devido aquela inversão operada pelos espelhos, jamais se veria como os outros a viam. Ela via-se de dentro, e ao contrário. Os outros viam-na de fora, mas também ao contrário. Quando ela estendia a mão direita, tocava sempre a face esquerda de outrem. Somente em frente ao espelho sua mão direita tocava sua face direita, mas sem alcançá-la na realidade, interpondo outra mão direita, outros dedos hesitantes, e uma frieza implacável.

Cada vez passava mais tempo frente à superfície gelada do espelho. Muitas vezes, ficava sentada na penteadeira. Outras debruçava-se sobre o espelho de aumento, examinando pedaços de si mesma que desconhecia. Explorava sua imagem como quem examina os mapas de territórios estrangeiros e distantes. Surpreendia-se com a existência de crateras e vales, florestas, montanhas, uma geografia variada e antes totalmente desconhecida. Frente ao espelho de pé, ela podia visualizar todo seu corpo, ou melhor, toda a parte da frente de seu corpo, e algumas nesgas laterais. Insatisfeita, mudou a posição dos móveis para permitir a observação de suas costas, território tão ignorado que custava a reconhecer como seu.

A cada dia sua observação tornava-se ainda mais apaixonada. Sentava-se mais cedo frente ao espelho, demorava-se mais em cada exame, e juntava mais e mais superfícies onde pudesse se surpreender. Passou a colecionar espelhos de todos os tipos e tamanhos. Pequeninos espelhos redondos rivalizavam com outros retangulares, enormes e pesados. Espelhos emoldurados de ouro e prata encostavam-se em paredes recobertas de mosaicos espelhados que a refletiam em cores sonhadoras ou aflitas. Via-se em reflexos de âmbar, surpreendia-se azulada como se fosse um ser marinho, examinava-se nos tons alaranjados, uma mulher flamejante.

Incansável, conseguia descobrir ainda novas formas de espelhar-se, polindo metais e assoalhos, enchendo bacias com água cristalina, procurando-se nas vidraças obscurecidas do entardecer. Espalhou os espelhos por toda a parte: Sobre os móveis, na porta dos armários, nas paredes e nos tetos de todos os cômodos da casa. Já se tornava difícil caminhar pelos aposentos, sendo quase impossível distinguir o que era real e o que não passava de mera imagem, reflexo do reflexo.

Um dia, se deu por satisfeita. De tanto se procurar, havia se perdido por completo. Sentada no que lhe parecia ser o centro de seu próprio mundo, ela se deixou ficar obedecendo os comandos das imagens, sentindo-se cada vez mais fria, mais fragmentária, mais imaginária.

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