Da solidão de não conseguir contar uma história

De ANDRÉ DE LEONES.

É uma história muito triste, e aconteceu de verdade.

Tá vendo essa porcaria de lanterna? O que você acha se eu fizer ela desaparecer?

A história, na verdade, não começa assim. Não começa com ele e sua imitação parafrásica ou nem isso do Coringa de Heath Ledger (R.I.P.), a história não começa com isso, mas, seja como e por onde for, a melhor coisa a fazer é: preparar-se. Porque eles não estavam preparados. Eles eram estranhos e infelizes.

As coisas, digamos, estavam esquisitas mesmo antes do começo. Para ambos. De tal forma que, quando eles afinal se conheceram e a coisa começou para valer, não houve nada nem ninguém capaz de salvá-los deles mesmos.

Por exemplo: eles andaram pelo lugar, ele tentando enxergar o mar onde não havia mar.

O que doeu mais: os socos nas paredes, alguns objetos atirados, as constantes faltas de água e quedas de energia, a depressão se instalando, as noites mais e mais longas.

Por exemplo: sentados à mesa da pizzaria, rindo, as pessoas não fazendo nada para impedi-los, para salvá-los deles mesmos.

Por exemplo: você não vai entender, mas esta realmente é esquisita: casal vai ao psiquiatra. Viu? Eu sabia que você não ia entender.

Ele não me come mais, doutor. Não me fode mais, não trepa mais comigo, não me penetra mais, não me. É que, caramba, eu preciso dos ovos.

Eu sabia.

Por exemplo: ela nua, ele também, ela acariciando o saco dele, o esperma secando em sua vagina enquanto o beija no rosto e na boca repetidamente, o futuro ainda nos olhos dela, FUT no olho direito e URO no olho esquerdo, o telefone tocando e ele dizendo que precisa atender.

Por exemplo: ambos escolhendo o nome da filha.

Ou: nomear uma filha que não viria, que não veio. Ou: que veio e ficou dentro dela, apodrecendo. Ele não me come mais, doutor. Mas, como?…

É uma história triste, aconteceu de verdade, e começa assim:

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