Estranho Adão: 30

De RONALDO TRINDADE.

Penso em perguntar, mas desisto. Acendo um cigarro. Vejo pela janela a cidade acordando devagar. Ando vazio entre as garrafas de vinho. Vazias.

Já é segunda, tenho trabalho. Não me importo. Eu deveria.

Éramos dois. Não, éramos um mais um, ou seria um e um.

Penso que caberíamos num poema. Dois versos aparentemente desconexos, brigando para existirem juntos. Estranhos.

Duas noites antes eu pensava em me matar no meu apartamento e agora estava eufórico. Dentro da minha paz alucinada, eufórico.

“Você precisa dizer alguma coisa”, eu penso.

– Você gosta de gatos?

Inércia. Silêncio. Um espectro qualquer pairando no ambiente melancólico.

Depois de alguns segundos:

– Acho. É, gosto.

Não era isso que eu tinha pensado. Sou um idiota.

“Você nasce num lugar minúsculo. Passa metade da sua existência querendo ir embora. Inventa que precisa estudar, que seus sonhos coloridos existirão em cidades de cor cinza. Trata de amar menos sua família. Você aprende a ser indecentemente explorado num emprego medíocre pra bancar sua faculdade. Bebe cerveja nas sextas com amigos de quinta. Você inventa história pra parecer feliz ou engraçado. Vira a antítese de si mesmo e não sabe nem por que. Você é um idiota. Tem medo de perguntar.”

A imagem de uma mulher triste que desce uma rua mal iluminada invade, abrupta, meu pensamento. Vestido vermelho, longo. Cabelos negros. Quase um filme noir. O que sugeriria um crime, minha mente psicopata se graduando aos poucos. Eu aprendendo psicanálise. Eu.

Preciso pecar.

– Quer uma tragada?

“Quando era pequeno eu queria ser Deus”. Pense em outra coisa, idiota. Faça sentido. Seja prático, acessível. Todo mundo faz sexo e depois esquece. Ninguém tem medo de parecer ridículo. É preciso pouco para ser normal. Não inventa moda. “Quando era pequeno eu queria ser Deus”, você vai acabar num sanatório.

Obscena Senhora D, sem Ehud, sem vizinhos, sem menino porco. Apenas Derrelição.

Saudades de que então? Se nunca provaste de nada? Se tens medo do sopro da vida? Se tens medo do tato, do calor de outra pele? Uma noite dessas, morres te masturbando pensando em quem não te consome, em quem não te imagina. Você precisa é de uma tragédia de verdade.

Fico perdido entre muitos eus e me esqueço do cigarro, da companhia, do trabalho. Já é segunda-feira.

Penso de novo em perguntar, já é hora. Não é apenas natural, a situação exige aquele tipo de atitude; e eu entre reticências e reminiscências.

Não pode ser só medo. Que parte do indecifrável do humano me falta para ser completo?

Vamos lá, uma atitude simples. Uma pergunta banal…

“Vai fazer o que quando crescer, idiota. Ser Deus?”

“Não enche o saco. Não preciso ser igual a todo mundo.”

“Devia parar de se fazer de doente. Sabia que até Kafka teve alguém. Até um inseto ama. Sabia, Samsa?”

“Vou procurar mais vinho barato pra afogar você”

“Não adianta, cedo ou tarde você cede. Amigo, eu sou você. Não tenha medo, eu te ensino o caminho. São só alguns passos.”

“Não quero viver de abismos.”

“Você não quer é viver”

“Um consenso.”

Consigo voltar à superfície. Ainda estou no meu apartamento, o sol incomoda.

– Onde é que você estava?, pergunta, me olha e me arrepia.

– Bem aqui. E você?

– Preciso ir.

Perdi de novo.

– Tudo bem. Quando é que a gente se ver?

– Sei lá, a gente se fala. Deixei meu telefone anotado ali.

Vejo na mesinha entre diversos esboços feitos de mim, provavelmente durante o transe, o número de telefone.

– Tá, eu te ligo.

Quando ele sai, eu vomito. Ali mesmo, na sala, com tudo apinhado, garrafas, almofadas, vinis, minhas distâncias. Tudo batizado. Lavado. Uma apoteose às avessas, o ocaso. A desgraça.

Estou sentado. Sinto dentro de mim o relógio correndo e anunciando. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Você está morrendo. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Você está morrendo e nem se importa. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Você está morrendo e nem se importa, e nem se importam. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac.

E é uma dor fina, sutil, a solidão. Acompanha-a sempre, um amargo gosto de sangue.

“Você perdeu. De novo.”

“Perdemos juntos. Você sou eu.”

“Eu não sou você. Sou sua vitória pressentida. Sou sua vitória derrotada. E estou cansada. Logo, logo desisto de você. Você é um caso perdido.”

Não vou trabalhar hoje. Mais tarde eu ligo dizendo que fiquei doente. Aproveito e vejo se fico mesmo. Antes tenho que limpar a casa e prepará-la para um eventual suicídio.

Tenho a mania de ficar imaginando modos de me matar em casa, sem alarde. É um ambiente muito limitado e acabo sempre recorrendo ao tradicional, pulsos cortados ou forcas improvisadas. E fico me vendo sendo encontrado por estranhos, ou pelo porteiro, ou por policiais, ou por um colega de trabalho que depois de dias sentiu minha falta. Me vejo nu na cama, comprimidos poéticos espalhados pelo piso de madeira. Vejo meus olhos vidráceos no teto. Olhos procurando Deus tarde demais. Sou saqueado pelos vizinhos que descobrem dinheiros e segredos e que não deixam, ao saírem nenhuma vela acesa para Dario envergonhado. Vejo, depois de algumas horas, meu velório apressado, meu cortejo, o choro contido de Amanda. Ela que me ama calada e a quem eu pouco mereci.

É, devo considerar que tenho Amanda, uma amiga acidental na cidade perdida, dois anos atrás me acordando pra dizer que aquele era o último ônibus pro centro, dormindo em casa uma semana depois, virando minha consciência viva.

Preciso ligar para ela e dizer pra ela sumir. Que ela precisa de alguém saudável perto dela. Que ela é boa demais pra mim.

Quatro garrafas de vinho, uma de uísque, dois maços de cigarros. Recolho tudo com nojo. Tenho vontade de tomar banho, me sinto imundo, mas a água não lava essa dor que eu sinto. Essa sujeira toda que eu sou não se limpa.

Angústia, eu poderia dizer, é quando você se sente mais desprezível do que seu próprio lixo.

Jogo tudo fora e choro. Não me consola saber que Ginsberg sofreu mais do que eu. Não faz me sentir melhor o fato de que crianças morrem de fome na África que fica na minha esquina, nem os moribundos com cara de anjo que se mostram na TV.

Eu apenas choro. E me sinto diminuindo. Ficando cada vez menor e menor.

Antes que eu suma, devo deixar claro algumas coisas; providenciar certa coerência para minha história. Resolver alguns maus entendidos, dizer pra minha mãe que eu a amo e que ela não deve se sentir derrotada porque não me entende. Isso não é mesmo muito fácil.

Devo distribuir alguns abraços antes de desaparecer.

Tomo um banho rápido e caio na cama, vou dormir até a tarde. Faço antes uma oração sem fé pedindo pra não acordar.

Antes de pegar no sono tenho pensamentos variados. Preciso cortar o cabelo. Tem reunião de condomínio hoje a noite. Eu não vou. Tenho que pagar o condomínio. Preciso ler alguma coisa de Clarice antes de desaparecer. E tenho que providenciar um pouco de felicidade para sexta-feira. Faço aniversário. 30.

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