Flerte

De GERUSA LEAL.

Mas também pode ser. Pode ser que ao ouvir o rugido do trânsito lá embaixo apenas fique parado diante da janela aberta, sem saber se até esse gesto, esse esforço, valeria a pena. E depois resolva sentar no sofá. Deixar a vida escorrer pelos minutos. Pelos dias. Deixar escorrer.

Se devia escrever um bilhete, estava na hora de começar, apanhava uma folha de papel na impressora, a caneta em qualquer lugar – sempre havia várias espalhadas por todos os cantos do apartamento, a coisa que mais o irritava era não encontrar caneta quando precisava de uma -, e começava a rabiscar qualquer coisa. Levantava e andava de um lado para o outro, as mãos nos bolsos. Assinaria com algum pseudônimo que causasse impacto, ou nem assinava. Que sentido fazia assinar? A cabeça baixa, contava as cerâmicas do piso. Talvez alguém bateria à porta para pedir um favor, uma ajuda ou apenas por engano. Sentado na cama, imaginava histórias possíveis. Descia, atravessava a rua e ia almoçar no self-service em frente.

Talvez seja melhor agora. Agora que é madrugada. Agora que o trânsito já escasseou e o silêncio inunda o apartamento e o tic-tac do relógio se agiganta exigindo, ordenando. Agora que a vida não o distrai. É só abrir a janela. Ou sentar e escrever o bilhete. Antes que o dia amanheça.

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