O homem feliz

De ALEXANDRE BOURE.

Nunca soube o que era preguiça.

Nas manhãs frias e úmidas o dever de seu ofício o despertava, a mão ardia como a de um jogador feliz por seu vício.

Ele tomava o seu café e recebia o sorriso passivo da mulher. Ela nada temia nas manhãs em que ele havia mostrado anteriormente, na madrugada, o quanto a podia fazer tremer em sensações divinas. Ela nada temia nessas manhãs. Sempre que ele a penetrava conciso e atencioso, sentia-se dele como seus braços fortes o eram. Nada era dito na primeira refeição de todos os dias. Mastigava-se, engolia e se mostravam os dentes furtivamente.

Ele então seguia pela rua brilhante como ferro. Uns o acenavam e invejavam seu emprego, embora ninguém soubesse, de fato, sua natureza.

Seu porte era altivo. As mulheres gostavam de um teor nos seus olhos e não sabiam por que. Gostavam de como suas mãos se postavam como segurando rédeas.

Quando gentil, o que era quase sempre, cedia seu espaço para sentarem-se no grande ônibus. Ajudava com informações de todos aspectos. Doava a cada semestre um percentual de seus ganhos. Aos domingos, visitava a paróquia, e conversava com os clérigos. Sofreu uma vez ao atropelar um cão roliço. Levantou os treze quilos de carne infracta, e penou uma semana para esquecer aquilo. A lembrança da agonia do cão, o som abrupto da batida na lataria, e o sangue na mão perseguiram-no por toda uma semana. Mesmo no trabalho ele sentia aquela morte inesperada da qual havia sido responsável, mas se curou.

Era um homem que adorava ir ao zoológico e agradar garotinhos com guloseimas. Era, sobretudo, o melhor no que fazia. E se não bastasse, ainda amava a mulher com uma fome salutar, quase todas as noites. Eram um sujeito que lavava a louça da janta e escutava Bach muito alto, até relaxar, e poder orar a Deus.

Tudo acontecia ao mesmo tempo. Seus superiores o aclamaram como o melhor profissional em atividade de seu ramo. A mulher estava tendo enjôos, e ele se imaginou pai.O governo estava prestes a conceder a ele um benefício especial. Por seu trabalho difícil e único. Havia um jantar com o prefeito marcado para a semana. A dor de dente havia passado com o imprescindível tratamento de canal… Ele se sentou no banco da estação e olhou para o céu. E se perguntou se merecia tudo aquilo. Havia uma nuvem em formato de andor e brilhava feito diamante. Ele se imaginou pai. O filho com gorduras novinhas e uma pele cremosa. Um filho rindo.

Ao sair da estação entregou uma nota que surpreendeu o sem-teto. Entrou no edifício cinza como um cofre. Os sapatos fizeram barulho no corredor. Alguns olhos assustados
o olhavam, mas ele não se deixava influenciar nunca. Cumprimentou o amigo que o acompanhava no ofício.

” Está feliz, não!” reparou o colega desajeitado.

“Sim, muito.”

Ao abrir a porta metálica olhou nos olhos de um rapaz trêmulo sobre a cadeira. Um padre em pé disse suas palavras. Ele levou o rapaz trêmulo à outra sala sem que esse desse por si. Parou em sua frente com sua cara dura, cara de trabalho, porque estava feliz e quis rir ali mesmo. A corda envolveu o pescoço, o saco de pano cegou o rapaz para o mundo.

A alavanca foi acionada com a mesma eficiência de treze anos de ofício. Cataclam! O cadafalso se abriu e o pescoço se esmagou no mergulho.

O homem feliz saiu acompanhado pelo ajudante e vestiu o paletó.

” Tudo vai bem, tão bem que parece mentira! Toma um drink?”

O rapaz aceitou nervoso. E, invejando aquele homem, o seguiu até o bar escondendo o tremor das mãos nos bolsos do paletó.

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