05h37

de Maurício de Almeida

Tudo se arrasta e nada parece resistir a essa manhã cinza e encharcada por pingos finíssimos (não é chuva, mas soluço), por isso, a cada movimento curto do ônibus, os freios rangem de ódio e todos chacoalham bufando desacreditados (não tensos), olhando para os lados, distribuindo interrogações, inventando acidentes e enchentes para justificar tanto ódio, alguns murmuram sozinhos aquele absurdo ordinário de uma manhã cinza e outros voltam para debaixo das frases curtas de um romance chato, todos se rearranjam no espaço pequeno do ônibus lotado enquanto eu ainda muito confuso por causa da noite (azul, sim) de tantos corpos, eu quieto e amassado num canto (costas curvas, mãos entre os joelhos) e ainda atrapalhado no meio de tanta gente transpirando sono, resmungando a manhã que me escapa, então encosto a cabeça na janela e vejo uma infinidade de capôs acumulados que desenham um mosaico impossível no asfalto, um carnaval improvável de cores sem vida e nenhuma lógica, sei que bufamos o ódio dos freios e inventamos um carro alegórico sem graça, foliões desacreditados (não tensos) nesta quinta-feira encharcada de soluços, por isso tudo me atordoa quando eu só queria dormir um sono tranqüilo, sem freios, noites e pessoas bufando, pessoas atentas e preocupadas a essa hora da manhã, segurando sacolas, pastas e guarda-chuvas, pessoas se amontoando no ônibus e me sufocando num canto com exclamações e romances ordinários (olhando para mim como se perguntassem a cada rangido dos freios
– quem é você?)
quando eu só queria dormir um sono fácil e descansar a cabeça confusa de uma noite revirada em ressacas, eles sabem muito bem quem sou eu (estiveram, sim, comigo, numa embriaguez azul) e mesmo assim me enchem o saco num rangido
(– quem? quem? quem?)
então os ignoro e lá fora ainda uma infinidade de capôs (um carnaval triste) que sem querer escoram um muro cinza (que soluça) extenso e muito grande, um muro que divide mundos e tenta, com algum pudor, esconder um ou dois rasgos que expõem seu esqueleto torto de ligas de aço e ferrugem, mas de repente
(– quem é você?)
um ou dois rasgos no meio da minha cara expondo não meu esqueleto de cálcio e sustos, mas compondo meu rosto numa bricolagem alucinada de muitos olhos, (um mosaico absurdo) de tantos rostos se justapondo ao meu, de repente meu cabelo maior, de repente um bigode, uma barba, de repente um olhar pesado, uma insônia a mais debaixo de olhos desproporcionais e assimétricos, de repente uma onipresença bizarra e num rangido
(– quem é você?)
não sou mais nada, porque eram eles, eu sei, eram eles à noite me confundindo o rosto em olhos caídos, um o nariz aquilino e um queixo projetado num quase siso (nem tenso ou desacreditado)
(– quem? quem? quem?)
não sou nada porque nem a lâmpada dependurada no teto daquela sala refletia a palidez do meu corpo vibrante e intumescido, afinal eu tinha (tenho?) enrolado a mim outros tantos corpos (outro carnaval absurdo) numa convulsão vibrante e intumescida, e agora muitas mãos (sacolas, pastas e guarda-chuvas) percorrendo os desníveis e acidentes obscuros do meu corpo como antes as bocas me chupavam o ódio e me lambiam o tornozelo e nós todos aos gritos a cada movimento brusco
(– quem é você?)
e eu (que não sou nada, nunca serei) repuxando aqueles corpos que caíam e caem sobre mim entregues e emputecidos como uma manhã estranhamente cinza, calmamente caótica e aos soluços, todos aqueles rostos angulosos numa infinidade de reentrâncias (cabelo, barba, queixo em siso e olhos cheios de insônias) e pupilas imensas se reinventam em universos, mas não me vejo nelas (apenas íris de lantejoulas e espanto) porque muitas bocas me cegam aos beijos e me confundem em violência, línguas ainda conjecturando prazeres em fonemas engasgados que me sufocam (costas curvas, mãos entre os joelhos) e então entendo que todos esses reflexos não me compõem numa geometria estranha nem me dilaceram numa matemática impossível, mas me diluem num borro (de cores sem vida e nenhuma lógica) e por isso eu sou tudo, sou todos, eu (eu?) sou deus em soluços.


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