A Sereia da Guanabara

Guido Cavalcante

Há quem afirme que o que estou contando não passou de uma história de Carnaval. Eu concordo que o mais completo delírio conformou a realidade desses fatos, porém por meu lado também afirmo que a verdade muitas vezes está além daquilo que apenas o senso comum acredita como possível. A verdade é que esses acontecimentos ficaram inscritos na paisagem, pois se o mar não rodeasse toda a cidade nada do que vou contar teria acontecido.

Na mesma hora em que Benjamim montou na bicicleta, onde prendeu um enxadão no cano sob o selim e pedalou pela Avenida Brasil desde Ramos até o rio Irajá, para os lados do Mercado São Sebastião, onde passaria o dia cavando uma valeta no lamaçal, no outro lado do mesmo mar que abraça esta cidade, em Copacabana, um assalto a um hotel da Avenida Atlântica estava começando.

Ainda era bem cedo. O paredão de edifícios diante do oceano mal se tingia da pátina rosada da aurora, que se retraía como se o novo dia não a convidasse para o nascer do sol. O Atlântico também dobrava as vagas preguiçosamente, para desafogá-las com o calmo rumor de uma despedida na areia.

Os madrugadores encetavam lépidos a caminhada diária, no encalço da descarga de endorfina, que em algum momento da marcha brotaria como um manancial delicioso e restaurador. Nestes momentos, céus!… O ar é puríssimo, o mar é impoluto e todos os homens ali caminhando e correndo são bondosos, delicados, amigáveis, generosos, cordiais e francos e não, como se mostram sempre durante todo o resto do dia calculistas, manhosos, astutos, pérfidos, maliciosos, vingativos e briguentos.

Mas que é o matraqueio ríspido vindo do outro lado da avenida? Em seguida, o ruído de vidro estilhaçando arrebata a paz ao dia. Triste notícia: estamos correndo para salvar a vida. A partir daqui, esta história poderia ser cantada como num samba-enredo:

Foi numa trágica alvorada
Quando até o sol se escondeu
Do alto, o Cristo ferido
Levantava os seus braços em vão.

O assalto aconteceu em um hotel de luxo, onde uma família libanesa foi saqueada do seu pequeno tesouro. A peça mais cobiçada era um esplêndido diadema de ouro branco cravejado de rubis. A primeira parte do assalto correra sem problemas: dois bandidos disfarçados de empregados entraram na suíte dos hóspedes e não deram chance de reagir. Outro comparsa fazia a segurança na recepção do hotel. Na rua, o quarto elemento aguardava no carro.

Mas na segunda parte, a fuga, um hóspede escapou do hotel e começou a gritar. Uma patrulha da polícia percebeu os assaltantes correndo em direção ao carro estacionado no calçadão. Instantaneamente, um dos bandidos sacou a metralhadora. A rajada atingiu o pobre sujeito e estilhaçou a porta giratória de vidro blindex. Os PMs começaram a atirar. Pulei para a areia e corri em zigue-zague. Minhas pernas se embaralharam, tropecei e rolei dando uma cambalhota.

Foi então que a vi. Ou ela a mim, pois emitiu um som agudo de surpresa. Um débil lampejo na água mostrou um torso nu fraturado pela marola, onde os cabelos abundantes espalhavam-se cobrindo os seios naturalmente. Era uma mulher que não era mulher, pois num movimento esquivo a lembrar os arranques de uma morsa ou lobo marinho, jogou-se para trás com incrível precisão, mostrando o corpo escamado sobre as ondas que seguiam indiferentes. A cauda bateu vigorosamente duas vezes na água, impulsionado-a com velocidade. Era por assim dizer, o inverso de uma sombra que fugia

As suas escamas despediam um brilho azulado como lápis-lazúli, que gradualmente chegava até ao rosa na extremidade bífida da cauda. Vi claramente sua forma ondular nas vagas suaves, de maneira que posso jurar que se tratava de uma sereia. Esqueci das balas perdidas e corri para a água, mas quando me aproximei ela já havia desaparecido.

A confusão no calçadão da Atlântica agora corria em outra direção. Os bandidos foram perseguidos até a Princesa Isabel. Bem que tentaram escapar pelo Aterro do Flamengo. Mas nova patrulhinha da PM veio juntar-se a primeira e obrigou-os a recuar em direção a Avenida Pasteur. Sem saída por terra, invadiram o Iate Clube. Dois ainda estavam vivos. Agarrando a sacola do assalto, capturaram uma lancha que estava prestes a zarpar com um grupo de pescadores submarinos. Mas não foram longe. Um helicóptero da polícia apareceu e começou a perseguir a embarcação. Uma saraivada de balas perfurou o tanque de combustível, provocando incêndio seguido de explosão. Os destroços foram varridos para todas as direções. Os bandidos, pulverizados. A sacola foi ao fundo e os dólares, os euros e o diadema de ouro se perderam no oceano.

Dessa parte em diante, os fatos se misturam com a fantasia. Por inimagináveis, não os considero menos reais. Pois tratam da remota possibilidade de que Benjamim desse com uma sereia enredada nas raízes de um manguezal sombrio nos fundos da baía da Guanabara. Como num samba de carnaval, o acaso inspirou este enredo:

Foi num remanso de águas turvas
Onde este encontro aconteceu
Amaram um homem e uma sereia
Louca paixão que o mundo comoveu.

Benjamim estivera toda manhã abrindo um rego no lamaçal, por onde o refugo ácido de uma fábrica de baterias escoava diretamente na baía. Aquilo produzia uma ardência terrível, como agulhas penetrando doloridamente na sola dos pés.

Na água preta da baía
Que hoje em dia mal respira
Ferida mortalmente a beleza de outrora
Que ao navegante deslumbrou.

Numa das vezes que levou o antebraço aos olhos para secar o suor, Benjamim se assustou com o espadanar de um grande peixe se revolvendo a beira da água.

Hoje totalmente poluída
Em perigosa armadilha
A Guanabara se transformou
E no lodo venenoso
Pobre sereia aprisionou…

Domar a bicha não foi fácil. Mesmo enfraquecida e quase cega pelo lamaçal tóxico que entupia olhos, narinas, ouvidos e boca, a sereia resistiu ferozmente. Até que uma pancada desferida com o cabo do enxadão encerrou a luta.

Benjamim improvisou uma jangada com garrafas de plástico que boiavam na enseada. E nela levou a sereia desacordada até o barraco onde vivia na maré. Nos dias seguintes foi se estabelecendo uma espécie de relação entre o homem e o anfíbio. Benjamim limpou e tratou da sereia. Deixou-a se recuperar numa banheira velha que encheu de água, onde ingenuamente pôs sal de cozinha como se ali fosse o mar. E alimentou-a com caranguejos, que ela despedaçava com a boca carnívora e mastigava ruidosamente, triturando e engolindo com avidez os bichos ainda meio vivos.

Uma noite Benjamim quis amá-la. Primeiro foi à força, agarrando-a e procurando com o membro duro penetrar aquela carne que escorregava e era impossível segurar firme. Depois parece que ela compreendeu do que se tratava e cedeu. Recebeu a dádiva no âmago do seu ventre, por uma fenda que desvendou entre as escamas do púbis. Saciado, Benjamim viu que ela também lhe sorria amorosamente. Em seguida cantou para ele na sua língua ininteligível. Benjamim ligou um rádio de pilhas e deixou a música baixinho. Adormeceram abraçados. Ainda assim, dava pena vê-la presa na banheira. Sabendo que ali a sereia morreria, o homem se condoeu. Noutra noite, agradado, decidiu soltá-la.

Manhãs depois, Benjamim furtivamente levou a sereia para o mar. Foram num bote velho, que tomou pensando devolver sem que o dono percebesse. À medida que entravam na vasta baía, a sereia readquiria o viço. Porém o barco não resistiu a curta navegação. Perto da ponte Rio-Niterói uma onda encobriu e em seguida desmanchou a embarcação. Sereia e homem afundaram. Ela, livre no seu elemento. Ele, se debatendo para não afogar.

A sereia puxou o rapaz até a beira de uma praia. Em seguida partiu mar afora. Mas o destino não permitiu que a saga terminasse desta maneira. Talvez cedendo ao desígnio sedutor da sua espécie, eis que ela retorna e deixa aos pés do náufrago o mesmo, o mesmíssimo diadema de ouro branco cravejado de rubis roubado no assalto de Copacabana. Parece história de samba-enredo!

Mas a realidade domou o verso. Pois o dono do bote dera parte e a polícia chegou facilmente em Benjamim. Alguém o tinha visto saindo cedinho no bote roubado. Quando deram com ele, estava tentando vender o diadema por qualquer preço. Quis entregar a jóia. Algemaram-no. Jurou que ia repor o bote perdido. Um cassetete calou-o.

Benjamim foi torturado brutalmente. Obrigaram-no a admitir a sua participação no assalto. A confissão raiava ao absurdo. De tanto suplicar, e apesar dos choques e do pau-de-arara, a polícia resolveu levá-lo de barco ao local onde, jurava nos estertores da dor, recebera da sereia o diadema de ouro. Depois não sei mais o que aconteceu com Benjamim.

Diz-se que mesmo algemado lutou até cair no mar e sumir. Já outros afirmam que foi sumariamente executado. E o corpo afundado com uma pedra no pescoço para nunca mais ser encontrado. O diadema desapareceu, mas sobre tal fato muito cuidado, dele o melhor é calar.


%d blogueiros gostam disto: