Antes do carnaval

de Susana Fuentes

– Que maravilha a rua, uma beleza, nem um pio.
– Você olhou direitinho no jornal como é que se faz para chegar a Laranjeiras?
– Claro, tudo certo: a gente pega o ônibus que vai pelo túnel, atravessa o Jardim Botânico.
– Não tem perigo de encontrar um bloco?
– De jeito nenhum, li o roteiro dos blocos de rua no jornal. Como o Leblon está tranqüilo hoje…
– E se o ônibus de Botafogo passar primeiro?
– Nem pensar, hoje tem três blocos por lá.
– E na Lagoa?
– É um só. Mas do outro lado.
– Olhe, lá vem, que sorte a nossa.

– Este ônibus está uma maravilha.
– Um silêncio só.
– O trocador, veja, está até dormindo.
– A rua livre, uma sorte.
– O Jardim Botânico vazio, um sossego.

– O Cosme Velho.
– Pois é. O bondinho do Corcovado.
– Olhe o Cristo Redentor.
– Laranjeiras, vamos saltar.
– Nunca foi tão fácil chegar até aqui.

– Você tem pó branco da maquiagem?
– Aqui está. Batom?
– Droga, ficou manchado.
– Tem que passar assim, ó, bem de leve. Agora deslize no rosto, assim, pronto.
– Você dobra a aba do chapéu para mim? Tá bonito?
– Está bonito. Vem, a hora é essa.
– Ajeite a flor no bolso da capa.
– Você vem?
– Já estou pronto.
– Só falta a gente. O acorde vai soar,

um, dois, três e…

Ó abre alas, que eu quero passar, ó abre alas que eu quero passar.

– Quanta gente no bloco.
– Tem mais chegando.

Eu sou da lira, não posso negar, eu sou da lira, não posso negar.

– Veja o mestre palhaço, o Doutor, corre, e salve!
– Salve!
– Salve a porta-bandeira e seu mestre-sala mirim. Salve a nega maluca na perna-de-pau.
– Salve, mestre palhaço.
– Tô bonito?
– Ai, eu já caí no carnaval.

– Que maravilha, a rua, quanta gente.
– Uma beleza. Cada vez mais.

Eu sou da lira, não posso negar, eu sou da lira, não posso negar.

– A tuba, viu, eu não disse? E tem trompete e trombone, até um saxofone, a caixa-clara, o tambor.
– Um boneco gigante.


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