Confete

de Lúcia Bettencourt

No Carnaval, sempre lhe vinha a lembrança de que jamais usara a fantasia mais cobiçada: Colombina, disputada por dois amores, indecisa. Os belos versos de Pierrô, o corpo ardente de Arlequim, e aquela que ela nunca fora, uma mulher em dúvida, sem saber a quem se entregar. Decidida, suas opções foram Sarong, Bailarina e Grega, Depois desistira das fantasias exteriores, e deixava-se ficar, fantasiando situações encantadoras. Mas a lembrança de Colombina sempre pousava em seu ombro, para perguntar, matreira: A quem se entregar?

Braços levantados mostrando o sovaco cabeludo, boca aberta no flagrante da canção ou do riso, com o batom vermelho meio borrado, a foto o encarava desde a banca de jornal. Com a fisionomia séria, o rosto bem escanhoado, o terno limpo e passado, a gravata discreta, ele olhava sua própria foto, instantâneo congelado na página da revista aberta como um pássaro em voo.

O bloco impedia a passagem de seu carro importado e ele se impacientava, olhando o relógio, vendo o tempo passar e calculando, de cabeça, quanto de sua vida se passava assim à margem, observando os outros vivendo, enquanto ele continuava preso, na sua gaiola cara e climatizada…

Ela cantava a plenos pulmões: “Este ano não vai ser igual àquele que passou…” Como não sabia o resto da letra, laralaiava até chegar de novo à frase, mais uma vez esgoelada. Sem lenço nem documento, ela seguia atrás do bloco de sujo, agitando o guarda chuva imitando os trejeitos do frevo de sua terra natal. O uniforme de doméstica, enrolado na cintura para ficar mais curto servia de fantasia, para quem, no momento, era indomesticável.

Ela passou por ele cantando, zombeteira:
— “É dos carecas que elas gostam mais!”
Ele acreditou, e entrou no bloco.

Na cama desfeita, ele acordou com a boca amarga de cerveja . Ao seu lado um bebê de tarlatana rosa. Aos poucos foi lembrando da fome de amor com que aquele bebê se atirara em seus braços, de sua recusa em despir a fantasia, da gulosa voracidade com que ela pedia “dá a chupeta!”. Passou a mão pelas ancas roliças, enfiou os dedos por entre as rendinhas da bata e acariciou os peitos redondos e pesados em que, trocando de papéis, quisera mamar. Mexeu nos cachinhos que escapavam da touca e, curioso, descolou o nariz de tarlatana que revelou o abismo da rosa púrpura do horror.

Nas mãos o estandarte do bloco, nos pés a sandália alta, o corpo vestindo a fantasia de brilhos e penas, ela caminhou para seu lugar, saboreando os olhares invejosos das mulheres e dos travestis, os olhares lúbricos dos homens. A bateria deu sinal, os tambores começaram a bater o ritmo e sua bunda respondeu repicando as batidas do bumbo com o pandeiro de suas nádegas. As pernas se moveram, indiferente às reclamações dos pés, que lhe ameaçavam com bolhas para o dia seguinte. Volteou, estendeu a bandeira, sorriu para o mestre sala e comandou o samba, desfilando na rua humilde e escura como se estivesse na passarela iluminada de seus sonhos.


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