De figos, olhares e mundos

de Dheyne de Souza

Parecia um absurdo, mas ele estava ali, feito máquina acompanhando aquela desventura de verbo feito loucura. Era uma loucura, uma loucura que ele cria em si desaguada em biombos que eram pedaços duma existência muito externa e por isso mesmo interna, não sabia, naquele momento tinha muito menos linguagem que corpo. Assistia:

– De jeito nenhum. Figo é uma fruta assim. Não, parente não. Ele tá muito. E esse pano, de quem é? É. De jeito nenhum. E o senhor, que que cê qué? É. Muito dinheiro. Dinheiro pra não acabar mais. É. Eu não como aqui não, eu não como em lugar nenhum. Fazer? De jeito nenhum. Não sei fazer. O que foi? Goiânia não é aqui não. Eu tô muito longe daqui. Muito longe mesmo. Eu não tenho pai não. Eu sou viva. Nem me conhece. E o senhor, o que que cê qué? Espera aí. É. Cê roba? Cê roba criança? Cê roba dinheiro pra comprar comida? Eu nunca fui lá. Cê não vai sozinho não. Não pode, não pode fazer isso não. É. É mesmo, é assim. De jeito nenhum. E o senhor, que que cê qué? Onde cê foi? Eu não tô aqui não. Eu não sou enterrada. Doce? Cadê o doce? Como não. Eu também vou. A casa dele pegou fogo. E o senhor, que que cê qué? É chuva? Não vai chover não? Matar? De jeito nenhum. É. Pegou um carro e foi-se embora. Tá precisando duns. Não vou tomá banho não. Então. Ninguém come. Deitar, deitado. Tá danado aqui. É de família. Eu não posso deitar. Até você? Mata? E o senhor? O senhor vai é… Vaissimbora, ganhar mais dinheiro. Escovar dente. Gente grande. É. É mesmo, é. Não sei nada, nada, nada. Nunca casei. A única coisa… Que que cê qué? Escondido. Só depois de meia noite. É desse jeitim. A polícia chegou. De jeito nenhum. E o senhor, que que cê qué? Me dando banho. Cê tem roupa, todo mundo tem roupa. Ninguém me entende. De jeito nenhum. Quê? De jeito nenhum. Que que esse homem qué aqui nessa casa? Canalha, de jeito nenhum. De jeito nenhum. É. A biscate morreu ontem. Tô vendo não. Até você? Não sou casada. Desodorante? É. De jeito nenhum. É… E o senhor, que que cê qué? Arrancá a unha? Não. Cortá cabelo, é? De jeito nenhum. É. Cadê meu cachorro? Cê? Ninguém vai comigo. Lá não tem estudante não. Eu acabei com o mundo. É. A-ca-bei com o mundo.

Era carnaval.

Pequenos mundos caóticos I*

– De que te cansa?, ele pergunta.
– Da renitência. Do proibido que é desistir, murmura ela.
– Eu não sei o que te dizer.
– Não diga, sustém um grito.
– E te deixar assim?
– E me deixar como?
– Não sei.
– Não, não sabe.
– Quer alguma coisa?
– Um chá?
– Gelado? Ele pensa um pouco tarde.
– Me traga um poema, uma pequena epifania, ela pensa um pouco exausta.
– Desculpe, respira.
– Não é o pouco, é do que o pouco anda.
– Por todo o corpo?
– Por toda esfera, mente.
– Não é você que está aqui.
– Você está certo, sorri de um terno morto.
– Então vá embora, ele.
– Você não devia ter aberto, chorando, sai.
– Vem, desculpa-se.
– Eu percebo as coisas tanto.
– Não lembra.
– Eu faço o que, espero que ocorra? Tenta.
– Eu não sei o que você precisa fazer. Eu não sei o que eu preciso fazer, gasto.
– Sustenho tanta imagem, tanta premonição, tanto pássaro, devir, vai até a janela.
– Vamos, diz.
– Há nuvens quedando desejos, trucidando juízos, resgatando uma transgressão de fotografias e pervertidas zombam do ócio, oscilando palavras sutis, elas mentem, elas julgam por trás dos tons, elas constroem molduras de madeira que dizem de vidro que dizem aderentes que dizem chover. Há telhados podres sustendo um céu nobre, de musgo, cimento, barro curtido, prometem vis quedas, juízes gnomos, surrar as paredes, vencer azulejos, viver de poeira, de vento, de instante. Há fios circulando, gemendo prazeres, cobrindo perfumes, promessas, pecados, e mentem também, e calam seus medos, desvios, seus meros, interrompem a lágrima, que jaz petrificada nos seus cílios espessos, eles cerram a retina, eles mastigam o frio e engolem angústia, e descaradamente gargalham. Há reflexos nos postes, nas janelas, nas pias, frinchas, nas alianças pousadas, eles gritam, eles falam, eles não medem absolutos nem nada, eles dizem verdades, eles inauguram verossimilhanças e amontoam cidades de nu, e assim eles cospem, das praças, dos filtros, das alamedas pequenas, águam mundos caóticos, colhem tecidos de diversos brancos, até aqueles que não são a olho nu, eles refletem os buracos mais feios, mais fundos, mais negros, as imperfeições das cutículas, os pelos podados, as tiras nos seios, os lábios, os freios, as rimas mais pobres, os enredos, escuta.
– Eu preciso que vá, vê o chão.
– Você precisa de teto, ela.
– Você está cansada, afasta-se.
– Você está nu, soletra.
– Nós não.
– Não, é verdade, à porta.
– Não olhe pro céu.
– Não olhe pro chão.
– Não me diga o que fazer.
– Não te digo mais nada.
– Não, diz.
– Bye.
– O seu mundo é caótico.
– E os teus?
– Por que você sempre faz isso?
– É você quem não me deixa sair, bate a porta.
– Eu não vou mais abrir, grita de dentro.
– Você mente. Você não sabe o que diz, lamenta, tropeça, engasga, volta.
– Eu te amo, tranca.
– Eu te mato, pedra.

*Bônus: texto da edição anterior que não foi publicado.

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