Dispersão

de Leandro Resende

Os detalhes todos bem cuidados, cantos bem varridos. Coisas e trapos no lugar. Um quadro grande com a imagem de Jesus Cristo (com belos e variados tons de um vermelho vivo e amarelo), outro do papa João Paulo II, uma caneca que ganhou do afilhado, um pires marcado de tantas velas – ela queima uma por dia pela alma do filho mais velho – e os pentes e escovas colocados em uma sequência do maior para o menor, em diagonal, sobre a penteadeira. Nas escovas, centenas de fios de cabelos.

Ela caminha pelo pequeno apartamento como se visitasse seu passado. O quarto de visitas – sempre vazio – tem o cheiro de sua cidade no interior (Orizona), com vários vasos e plantas. Uma cama que não recebe visitas e serve para ela colocar sua duas orquídeas e uma bromélia. Aos poucos, se tornava o quarto-jardim.

A sala é um álbum aberto. Os filhos, todos os sete vivos e os dois mortos, sorrindo em um quadro na parede oposta à estante, que tem atrás de si um enorme pôster com os vinte e sete netos e bisnetos.

Sempre cercada por trinta e seis olhares, quase todos castanhos e altivos – personalidade da família Esteves Andrade.

Apesar de sempre guardada e querida por tantos, resolveu mudar para longe e recebia poucas visitas. Optou por viver só, sem dar trabalho, incomodar.

O parente mais próximo morava a cerca de mil quilômetros.

Vive bem sozinha com suas plantas, fotos e peixes. O aquário, de dois metros de comprimento, tem quase 100 peixes. Passa horas olhando seus meninos e meninas do mar – como se refere a eles – ou revezado suas plantas de lugar, deixando que cada uma aproveitasse um pouco da luz do sol que entrava pelas janelas.

Sai pouco do apartamento. Para receber sua aposentadoria ou comprar comida, remédio e ração para os peixes, adubo para as plantas.

Vez ou outra o telefone toca.

Engano ou algum filho ou neto. Eles sabem que ela não é de conversa. Quando quer saber notícias verdadeiras dela, ligam para os vizinhos ou para o médico. Sofreu muito com a perda de dois filhos. “Não quero sofrer mais nem fazer sofrer”. Imagina que eles a entende, mas não pensa muito nisso. À noite, fica olhando um a um, filho ou filha ou neto ou neta ou bisneto ou bisneta. Sorriso, rosto, cabelos. Esboça um sorriso. Parece com o pai, com a mãe, com ela, com ninguém. Sorri para alguns. Para um deles, fica pensativa. “Perdeu o pai, ô meu Deus, tão moço. Vida injusta, injusta. Pobre menino da vovó. Nas férias da escola, quero ficar alguns dias lá. Pobre menino.”

De vida pacata e dentro de uma felicidade que ela construiu centímetro a centímetro, quando chega uma época do ano, ela se transforma. Sempre fora dançarina e namoradeira, e, nem a idade avançada, cessou seu calor. Casou-se três vezes e, no Carnaval, desde mocinha, sua libido se alterava, seus olhos flutuavam ao ouvir as marchinhas, os sambas-canções, os frevos. Dançava todos os ritmos e não escolhia parceiro. Gostava do corpo colado, dançar próximo, do olhar desconhecido.

Era a primeira a chegar e a última a sair – pouco importava com quem se envolvia. Era Carnaval, época de pecar. Com o tempo, aceitou sua reclusão e solidão. Aceitou o Carnaval pela TV, sem jamais perder o frenético embalo dos eternos foliões. Mexia os pés pelo menos.

As escolas passavam na avenida e crescia a inquietação interna, relembrava cada homem e corpo que atraia até ela e, em pouco tempo, já estavam trepando. Às vezes um, muitas vezes dois ou três por noite. Sorri e balança a cabeça, num gesto que une condenação e contentamento, lembrando de quando foi para cama com três ao mesmo tempo. O sexo fazia parte da sua dança, do torpor que a dominava, do estupor à síncope.

Reluta, um resto de pudor resiste, mas não consegue. Sempre assim. De dentro da caixa de aviamentos, retira uma perna de borracha de uma antiga boneca. Sempre assim. Ignora a bursite no braço, alisa seus seios caídos, masturba-os. Brinca contigo, fantasia suas remotas folias, canta, dança, conversa só, com amigas e, principalmente, com homens de ontens. Atrantes e grandes. Despe-se a um negro e seu amigo, um moreno baixo. Beija a própria mão como que lhes surpreendessem, abraça almofadas e rola pelo sofá, se despe. Rasteja pelo chão de tão excitada. Sente puta, muta-se. Segura a perna da boneca, morde-a, lambe, chupa, penetra-se. Vertigem. Minutos depois está jogada no carpete da sala, cansada, nua. O braço lhe dói um pouco, e seu olhar, ufa! extasiado, diáfano, como testemunham concentrados aqueles 36 olhares, aqueles quase 100 peixes.


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