O boneco gigante

de Gerusa Leal

Era meia-noite e as ladeiras estavam quase desertas.

Sentado no batente, acaba de fumar o cigarro, olha as moças que desciam pela outra calçada, rindo e conversando – dá uma última baforada, levanta, atravessa. Ela puxou a amiga para o meio da rua; a lata de cerveja caiu no calçamento rolando ladeira abaixo; olharam uma para a outra e apertaram o passo. Ele se vira, observa. Pingos de chuva anunciam mudança no tempo. Quando as duas estavam para virar a esquina um assovio cortou o silêncio. Do beco, surge outro rapaz. Caminha direto para elas, bloqueia a passagem. Lívia puxou a mão; Sílvia apertou forte e a arrastou de volta para a calçada. Aceleravam ainda mais e escutavam as passadas que pareciam também cada vez mais rápidas e mais próximas. Lívia soltou-se e começou a correr parando alguns metros adiante. Sílvia apanhou a lata de cerveja que parara no meio-fio e num só movimento voltou-se e arremessou contra um dos rapazes acertando na cabeça. Ele solta um grito e avança. Lívia assistia, sem sair do lugar, a amiga acuada pelos dois estranhos. Sílvia andava de costas tateando no ar e num salto estava dentro do jardim. Eles pulam atrás. Sentiu um puxão no cabelo e caiu. A mão forte tapando a boca e a dor fina do joelho nas costas. A outra mão se enfia pelo meio das pernas. Uma luz se acende dentro da casa, os dois fogem. A luz apagou e ouviu a voz de Lívia chamando por ela. Levantou-se e com a ajuda da amiga pulou o muro de volta. As fitas coloridas da decoração carnavalesca, batidas pelo vento, chicoteavam e se emaranhavam nas cordas em que haviam sido penduradas.

Abrigado sob a marquise, o boneco gigante sorria para as moças, chorando abraçadas na chuva forte, à meia-noite e cinco daquela quarta-feira, uma semana depois de cinzas.


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