O homem de camisa listrada

de Daniela Mendes

O diabo vinha lhe atentando há dias, enganando-o, convencendo-o de que era um fracasso. Era fácil persuadi-lo. Afinal ele tivera uma infância desafortunada e lhe feria o sonho frustrado de uma família só sua. A solidão, agravada pela originalidade que acompanha os gênios e os filhos de mães solteiras, nunca lhe dera trégua. Sem contar as tempestades que seguem as glórias conforme dita a ordem do universo…

Então, naquele dia, ele tomou a decisão irrevogável… Toda a sua vida passando num piscar de olhos. E lá estava em sua pupila o momento em que um tal de Laurindo o adotara. Ele assim o fizera porque achava injusto que um garoto tão perspicaz estivesse no meio da pobreza de Alagoinhas, na Bahia. Depois recordou-se do primeiro abandono, o momento em que fora abandonado pela família adotiva e arrumou trabalho como lavador de frascos num hospital. E padre Tolentino… Sim, o homem de Deus que o levou para Bonfim… E seria lenda o fato de um menino de 9 ou 10 anos ter assumido o cargo de secretário da diretoria do hospital? Tem que ser para dar seqüência a uma outra história ainda melhor, a de quando recitou poemas anticlericais de Castro Alves e Guerra Junqueiro em plena quermesse. Fato que o fez perder o cargo e o impulsionou à decisão de ser alguém e tomar para si todos os aplausos e carinhos do mundo. Por isso ele fugiu com o circo.

Desde então passara 29 anos, e ele chegou a conclusão infeliz que fracassara e que devia por fim àquela existência. Ele tinha uma certeza doentia que o tiro saíra pela culatra. Mas como alguém como ele pode chegar nesta conclusão infeliz? Logo ele foi descoberto por Heitor dos Prazeres e suas músicas se disseminaram pelas rádios. E a personalidade divertida que encantava a todos? E o talento de fazer inveja a qualquer Hermeto Pascoal ou Sivuca? Claro! Ele foi o precursor desta coisa de criar intuitivamente utilizando-se de sensações auditivas. A inspiração vinha de repente e de maneira espontânea. A fonte era as amarguras íntimas que culminavam em melodias alegres para falar de coisas tristes. Combinação perfeita que se perdeu aonde?

Mas estas questões não dominavam o homem. Nem tampouco ele lembrava-se da valentia que trazia no sobrenome. Meio que retalhado, mais um sucesso de carnaval cortava suas memórias sem fazer nenhum resgate.

Nem mesmo o sorriso de Carmem Miranda, aquela moça linda que o encantou quando ele a viu pela primeira vez no Teatro João Caetano, poderia restituir-lhe a esperança. A sua fada madrinha não o convenceria que o mundo não se acabou. Nem se ela dissesse que ele poderia dar o que falar no baile dos 40, ela o dissuadiria. Nada, nada mesmo o impediria. Desta vez poria fim a sua vida de uma vez. Tomou providências para não repetir o vexame de antes, quando atirou-se do Corcovado e foi agarrado por uma árvore. Foi humilhante ser salvo pelo corpo de bombeiros. Mas agora seria diferente…

A idéia era fixa: chega de perder para Elvis Presley e Bill Halley em sua própria pátria. Chega de miséria. Sozinho, isolado nas cores daquele fim de tarde, exausto e sentindo-se traído por todos aqueles a quem ele ajudara na década passada.

Decisão irrevogável. Guaraná bem gelado com cianureto. Assis foi Valente em desistir.


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