Era Melhor Ser Bodoque

Ismael Gaião da Costa

Ele foi criado no interior de um Estado do nordeste. Como toda criança sadia daquele arrebol, gostava de tomar banho de rio, pescar, jogar bola de gude, soltar pião e também de caçar passarinhos com seu bodoque, que naquele fim de mundo era mais conhecido como baleadeira.

Estudar era trabalhoso, ele não gostava muito. Quando ia para escola só pensava na sopa que lhe serviam na hora do recreio. Mas sua mãe insistia: “quem não estuda não vai ser ninguém na vida”.

Nas suas brincadeiras de caçar passarinho, vez por outra acertava a vidraça da janela de algum vizinho. Aí lascou, lá vinha reclamação pra sua mãe e, com certeza, uma boa surra para ele não mais fazer coisa errada.

Quando já tinha lá seus dezesseis anos começou a freqüentar as festas e paquerar as meninas da cidadezinha. Numa dessas, encontrou uma multidão no meio da praça e ficou a observar se a festa estava boa. Não era festa, era um comício. Já que estava ali, não custava nada ficar ouvindo aqueles discursos inflamados dos candidatos, pelo menos também olhava para meninas que estavam fazendo campanha para os candidatos. Eram as chamadas militantes. Ele nunca tinha escutado essa palavra antes, mas gostou das garotas bonitas que distribuíam santinhos de seus candidatos ou patrões.

Durante aquelas paqueradas ele não deixou de ouvir a ladainha dos oradores e num dado momento alguém, que usava da palavra disse: “é muito bom ser baleadeira, eu queria ver se um dia eles fossem vidraça como é que seria”. O menino, já rapaz, não entendeu bulhufas. Lembrou do tempo em que jogava pedras nas vidraças dos vizinhos caçando passarinhos, mas não soube associar ao que o orador disse.

-Tem nada não, deixa pra lá, o que me interessa aqui é olhar pras meninas e tentar namorar uma delas.

Com o passar dos anos, ele arranjou um emprego na prefeitura da cidade e, como era cargo comissionado, tinha obrigação de fazer campanha política para os candidatos do prefeito. Nesse entremeio ele criou gosto pela política. Acabou um dia sendo candidato a vereador, mas o prefeito eleito foi da oposição. Aí tudo mudou, ele ficou sendo um vereador contrário ao prefeito. Nesse trabalho ele sempre fazia discursos inflamados reclamando dos desmandos e das falcatruas que o gestor municipal fazia. Ganhou fama e, anos depois, foi eleito prefeito de sua cidade. Apesar de fazer uma gestão, mais ou menos, se comparada à maioria dos administradores, sempre havia um grupo que fazia oposição.

Em um dos comícios, no final do seu mandato, alguém da oposição disse: “E agora prefeito, que o Senhor está no poder, por que não cumpre tudo que prometeu?

Foi então que, o menino dos tempos de caçador de passarinhos, entendeu: ”é mais fácil ser bodoque do que ser vidraça!


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