Está muito calor para falar de amor

de Daniela Mendes

Está muito calor para falar de amor. Nada de sovaco, pêlo e abraço. Namoradas espremendo cravos nas costas de namorados feito macacos. Bunda melada no assento esperando o telefone tocar. Grávidas inchadas sugando guaraná. Mãos carinhosas servindo de lenço. Buquê de flores desmaiadas em repartição pública. Catarro de criança misturado com barro na cara. Melancias e mexericas fervidas no asfalto. Eu te… com cheiro de cano de descarga? Cigarro com óleo diesel? Escarro brilhando no muro onde escrevi eu te amo? Ah, chocolate derretido, vinho pervertido e bancos de jardins como frigideiras. Cabelos de musa despenteado e fedido. E o suor do rosto amarrotando a folha de um livro. Restaurante com cheiro de gordura queimada. Lágrimas apimentadas de tão salgadas por causa de conta de luz atrasada. Blusa de nenê com leite coalhado endurecido. Pele como plástico brilhante na cara de loira gostosa. Micose entre os dedos do príncipe de sunga.

“Meu coração é uma caipirinha de limão com bastante gelo, sem nenhum açúcar ou adoçante”.

Foi o pensamento dele.

Olhou com impaciência toda a vida lá fora, largou o computador ligado com o descanso de tela sugerindo: “Relata refero”! “Relata refero”! Coçou a bunda e foi até a cozinha pegar uma cerveja gelada. Depois voltou, mas para estante. Tirou uma bolacha preta do Clapton, colocou no aparelho antigo e fechou os olhos.

Então eu o deixei sozinho sem saber se ele continuou ou não a escrever. Creio que sem mim falou de amor.


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