Fim de caso

de Lúcia Bettencourt

Foi no meio da transa. Assim, sem mais nem menos, ela se esquivou, como sabia fazer quando queria deixá-lo ainda com mais urgência e desejo, e escapuliu para o outro lado da cama. Dali, puxando o lençol que havia se desprendido, levantou e se cobriu, num gesto fora do habitual. Ela, que nunca tivera pudor de sua nudez, que deixava as carnes se exibirem em sua brancura, que ostentava pelos e imperfeições sem se incomodar, daquela vez se cobriu com um movimento ágil e entrou no banheiro, trancando-se por dentro. Ele aguardou, ainda na esperança de uma surpresa.

Ela adorava surpreendê-lo. Quantas vezes não havia deixado escondido no banheiro uma nova lingerie, ou um balde de gelo, ou mesmo um raro brinquedo, como as algemas forradas de pelúcia e o chicote de fios macios, que não chegavam a machucar nem a prender, mas que o deixavam ainda mais enlouquecido de prazer? Ela se demorava, e ele, para não perder a ereção, começou lentamente a se masturbar, imaginando surpresas agradáveis. Mas o tempo passou e ele ouviu o ruído do chuveiro. Quase que simultaneamente sentiu a flacidez de seu membro, que pesou na sua mão distraída, e só então se levantou e tentou abrir o banheiro, mas a porta continuava trancada.

Ela se banhava, ele reconhecia os ruídos, a água batendo forte sobre seu corpo e ela levantando o rosto para trás, na tentativa de manter os longos cabelos fora do alcance do jato morno, nunca muito quente, mas nunca inteiramente gelado. Quase que podia ver o velho hashi que ela usava para prender o coque que pesava, se desmanchava, e que ela, com dedos ágeis, consertava sempre no último minuto antes da derrocada. Pensou na curva que a água fazia ao descer pelos seus peitos fartos, pesados, que ela levantava amorosa para oferecê-los ao jato de água, que enrijecia seus mamilos claros, quase indistintos em sua pele branca. Aquilo sempre o havia fascinado, a cor inexistente em seus mamilos, que pareciam duas cicatrizes redondas, enigmas de vidro que se propunham sempre que ela abria a blusa, ou quando descia o vestido. Porque ela tinha um método em sua nudez: jamais tirava o vestindo puxando-o sobre a cabeça. Seus vestidos tinham que, necessariamente, escorrer como água sobre seus ombros, sobre os braços que se movimentavam numa espécie de ritmo só dela e que faziam a roupa ondular e descer como se estivessem sendo sugadas por algum abismo que ela sabia criar com a força de seu sexo. Quando chegavam aos quadris, ela segurava a roupa e descia a veste devagar, juntamente com a calcinha, e se revelava toda nua, como uma deusa.

Ele tentou a porta mais uma vez, pediu com voz humilde que o deixasse entrar, mas ela, que já saíra do chuveiro, ignorou-o. Ele sabia que agora ela estava enrolada na toalha e que, de pé na frente do espelho, soltava os cabelos e os escovava, amorosa, a cabeça inclinada para a esquerda e o queixo quase que em cima do ombro direito, os cabelos prolongando-se, lisos e sedosos, até abaixo da cintura. Ela passava a escova com a mão direita e com a esquerda segurava aquela massa loura até que, num gesto sincronizado de mão e cabeça, jogava tudo para trás e suas costas resplandeciam com a luz que os fios pareciam emanar.

Ela sabia que ele adorava olhá-la enquanto se penteava e, generosa, sempre permitia que ele passasse a mão fascinada em seus cabelos, que os tomasse entre os dedos e os levasse até o rosto, e, mergulhando a face neles, aspirasse todo o seu perfume. Mas nada disso ia acontecer dessa vez. Ele ouviu o barulho da escova sendo depositada no mármore da pia, escutou os sussurros da roupa que ela vestia, com o corpo ainda um pouco úmido, pois nunca usava a toalha para se enxugar, só fazia se enrolar nela, como se isso fosse o bastante.

Daí a segundos o trinco estalou e a porta se abriu. Ele quis bloquear o caminho, mas ela se esquivou, e lançou-lhe um olhar de avaliação, como nunca havia feito antes. Sentindo-se ridiculamente nu, com o sexo pateticamente pequeno, encolhido, como se envergonhado de não estar cumprindo suas funções, deixou seus braços longos pendendo ao longo do corpo, e a cabeça baixa tentava esconder seu rosto perplexo.

Quis perguntar o que estava se passando, mas ela já lhe dizia palavras que ele custava a entender, coisas como fim, como acabou, como nunca mais e adeus. Em sua surpresa e dor ele não conseguia articular nada, só os seus olhos pareciam capazes de reagir, fabricando lágrimas, quentes, gordas, abundantes, enquanto ele ia desmoronando devagar e caindo sobre os joelhos ossudos e queimados de sol, enquanto suas mãos tentavam alcançá-la e agarravam apenas um pouco da fazenda do vestido, que pareceu se esticar, complacente, mas que depois se escapou de seus dedos trêmulos. E ele tombou mais um pouco, ficou de quatro, depois se estirou, tentando alcançar seu tornozelo, mas ela já saía do quarto, e ele sentiu apenas a madeira da porta, e, fechando os punhos, ficou batendo com raiva na porta, no chão, sentindo uma pena enorme de si mesmo, até que, finalmente, depois de um último soco, desistiu.

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