A Língua

de Daniela dos Santos

Ele terminara de despi-la com fogo nos olhos. Não se pareceria jamais com filme pornô, aquela cena. Não com tanta verdade, não com um desejo tão surdo e anti-profissional.

Ele terminou de despi-la e empurrou-a para a cama. Não foi um empurrão forte e violento, mas não foi agradável. O coração dela acelerou e sua cabeça deu um pequeno rebote depois de bater na cama.

Ele a empurrou na cama e se posicionou sobre ela, sem tocá-la. Ela nos olhos de fogo se sentiu envergonhada.

Ele pôs pra fora sua língua e a encostou no lóbulo da orelha esquerda (o rosto dela tinha se virado pra direita, de tanta vergonha). Ela tentou relaxar enquanto ele descia a língua pro pescoço, e pro ombro, e pro braço, pro colo, pro outro braço, pros seios, a barriga, a virilha e a coxa e as canelas, e o peito do pé.

Ela ainda tentava relaxar quando ele tentava virá-la de costas, para que pudesse lamber a batata da perna, e as coxas e nádegas, e as costas, e voltar ao pescoço e chegar à orelha direita.

Quando ele chegou à orelha direita, ela já tinha chegado ao fim do seu esforço. Já tinha sentido o suficiente do cheiro pegajoso da saliva dele, já tinha sentido demais a língua dele, já tinha olhado demais nos olhos. Era suficiente aquele vexame.

O corpo todo molhado e grudento de saliva e língua e ela mesma seca de vergonha.

Quando a língua chegou à orelha direita, quando terminou seu longo passeio, ela se levantou, secou-se com uma toalha, ergueu um pouquinho o braço direito e ainda cheirou a saliva pegajosa.

Ela olhou de novo pra ele, que ainda cheio de fofo e baba, mesmo que confuso; pensou em explicação, não encontrou, pegou a roupa e foi vestindo no caminho até a porta.

Ela pensava que seria melhor tomar banho em casa, ele pensava o que tinha saído errado, se as mulheres gostam de preliminares, enquanto ela fechava a porta.

Ele não pôs mais a língua pra fora.

Ela esperava ansiosa pela próxima lambida.


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