O escafandro

de Rejane Gonçalves

Leio os poetas. Todos eles. Quando termino, volto ao mesmo ato: ler os poetas. Carrego o peso a mim imposto pelo meu avô materno, desde que ele roubou – das mãos do padre na pia batismal – a água; e aspergindo-a sobre a minha cabeça impingiu-me de um só golpe o nome e a sorte: vai se chamar Tristão. Será poeta ou mais nada.

Acorrentei-me à leitura ininterrupta e exaustiva dos poetas na esperança de cumprir o vaticínio do meu avô, contudo uma voz soprada do outro lado, ouvida por todos os parentes, se contrapôs à dele e até agora parece ter falado mais alto. Eu seria tudo, menos poeta. Beiro os cinqüenta anos, uma calvície pronunciada, renitente, desbasta meus cabelos com a mesma firmeza de um jardineiro que arranca as ervas daninhas da grama recém plantada. Eu os encontro espalhados nos lençóis brancos, pelo chão do quarto, grudados às toalhas úmidas, estirados sobre meu corpo a parecer riscos feitos com lápis de ponta fina. Visita-me pois a calvície, nunca um verso. Jamais um deles veio às minhas mãos, brincou entre meus dedos, desequilibrou-se e me caiu numa vertigem na folha branca do papel.

Devo ser pálido, de uma cor semelhante a dos bonecos de cera, não aquela comum aos mortos. Não chegaria a tanto. Percebo-me surrupiando, para compor minha imagem, características de determinados poetas exangues, magros, tísicos, fantasmagóricos. O roubo em nada me favorece e com o tempo passou-me para o caráter o esmaecido da pele, como se a pusilanimidade fosse o meu invólucro, a carapaça que me defende do sentimento de culpa pela ausência das ações. Não sou eu aquele que protela, é a casca, ela, a armadura muito colada ao corpo, camisa de força a me manter de pés e mãos atados.

Acabo de chegar do enterro do meu irmão nascido cinco anos depois de mim, Laerte. Chamava-se Laerte e pôde ser o que resolveu ser; o avô das predestinações atadas aos nomes morrera um pouco antes de esse neto vir ao mundo.

Fomos ao sepultamento, eu e os poetas, não todos, dois ou três, até quatro, os que me acompanham por onde quer que eu vá. As pessoas naquele velório deveriam estar inconsoláveis; não tanto pela morte do meu irmão, se bem que gostassem dele, mas por um fato incompreensível, fora dos padrões da normalidade, incompatível com a bondade e justiça divinas: por que ele e não eu? Não fazia sentido. Também acho. Deus poderia ter feito uma melhor escolha; se eu tivesse ajudado é bem verdade. Bastaria um grito e o corpo do meu irmão teria subido na calçada, buscando a proteção do muro, antes que o carro o pegasse rente ao meio-fio. Recostado no espaldar da cadeira de balanço do alpendre, senti parte da visão corromper-se em fragmentos metálicos e meus ouvidos se encheram de sons tonitruantes, barulho gordo, pesado, como que saídos das vísceras de algum monstro. Estava a terminar a leitura de um verso, pouco, muito pouco para se completar a última palavra. Quis levantar a cabeça, pôr os olhos na altura adequada à captação do que viria a ser os veios metálicos, pôr os ouvidos em total disponibilidade à voz absurdamente rotunda, e meu pescoço sustentou-me a cabeça pendida a finalizar o verso.

Cheguei aos pés do meu irmão, deitei-lhe a cabeça em meu colo e súbito um vento atravessou-me as mãos vazias; dei pela falta dele, onde está, onde teria se metido? Alucinado procurei por ele, o poeta. Percebi-o prisioneiro das mãos de Laerte que o estrangulava. Comecei a lutar para salvar meu poeta, arrancá-lo daquelas garras sujas de terra, borradas de sangue e só depois de vários puxões, gritos, pragas, é que consegui. Fechei-o de encontro ao peito, cerrei os olhos em agradecimento, avaliei com extremo cuidado os danos infligidos aos versos e pude, finalmente, aliviado, me dedicar ao bom Laerte. Todos hão de convir, não tive culpa. Foi ele, o poeta. Conseguira como? Atracar-se assim, daquele jeito, com o corpo quebrado do outro. Quem começara? Eram desafetos, os dois? Eu o havia colocado perto de mim ao me ajoelhar e de repente lá estava ele se engalfinhando. Ele e meu irmão.

Ando impressionado, suscetível, e posso mesmo tornar-me uma ameaça para todos eles, os poetas. Aconteceu, uma única vez, de a membrana esbranquiçada – que cola meus lábios – ceder; eles se despregaram um do outro e pela boca aberta, na entrada desse túnel, enxergou-se a voz precipitando-se na escuridão, explodindo na frente dos olhos amorosos de Heloísa, a sobrinha mais velha, a preferida, a de rosto bem acabado, tão parecido com as sutilezas das rimas de um poema perfeito: não fui eu, minha pequena, o culpado. Foi ele, ninguém admite, mas foi mesmo ele, Álvaro de Campos. A mãe chega veloz, como que por encanto materializa-se. Teria o dom da ubiqüidade? Retira a filha das vistas do estranho tio, some com ela, protege-a, esconde-a em qualquer lugar, longe de mim, o urubu, vestido sempre de preto, longe do negror da folgada jaqueta onde guardo biscoitos e também os poetas.

Preciso, feito Albertina, a cautelosa viúva do meu irmão, proteger os meus, esconder Álvaro de Campos, jamais delatá-lo, não deixar que meus arroubos chamem a atenção sobre ele, porque daí a me exigirem um retrato falado é um pulo. Além disso, há um terrível agravante, ele não é um só, mas uma quadrilha. São vários. Desde a morte de Laerte eu o escondi nas costas da jaqueta, fiz uma abertura no forro acetinado, joguei-o lá dentro e depois costurei a boca do esconderijo com linha forte, pontos bem arrematados. Recostar-me na cadeira de balanço para ler tornou-se um suplício; o livro me dói, o poeta esmurra minha coluna. Ademais, não foi uma medida inteligente. De que maneira tê-los sob os meus olhos? Muito penoso é, para mim, abster-me de tantos poetas, já que da cabeça de Álvaro de Campos brotam outros, e mais outros, fluem, espocam mais facilmente do que Atena da fronte de Zeus.

O último a nascer chamou-se Fernando Pessoa, dos filhos, o mais embotado, de acordo com Tristão nosso poeta aqui presente – dizia, em vida, o morto à dúzia e meia de amigos convidados à ceia natalina; falava erguendo-me um brinde, acompanhado da elegância de um sorriso curto que se irradiava apenas para os cantos dos lábios e morria de morte natural, antes que a boca se desse conta. Albertina, a onipresente, ria; os olhos derramados sobre o senso de humor do marido e eu encrespava as asas de urubu como se as possuísse de fato. O fato é que necessito o quanto antes salvar Álvaro de Campos. Poderia, para isso, ouvir com mais vagar meus anseios de quietude, aliá-los ao bom uso das minhas peregrinações pelo vastíssimo campo das ciências exatas e construir alguma coisa, projetar um esconderijo, aquartelar-me feito a precavida mãe de Heloísa.

Diria que hoje testei meu invento; um invólucro que me esconde, protege, camufla, a mim e aos poetas, uma espécie rara de escafandro, de cujo ventre, mais precisamente preso ao umbigo, sai um tentáculo com a extremidade aberta em leque. Este leque, posto em sentido horizontal e elevado ao meu campo de visão, se inclinará, se abrirá em dedos interligados por membranas, igual uma imensa pata de ganso espalmada. Servirá o leque aberto de base ao livro; sob o meu comando esse arremedo de mão exibirá o poeta escolhido e os dedos a página desejada.

Informo a quem interessar possa que o tentáculo umbilical projetado para locomover-se de acordo com minhas vontades mostrou-se em parte satisfatório; uma vez que consigo ler os poetas assim expostos iguais a partituras. Os dedos, talvez, por não guardarem em seus códigos a memória das membranas, por não reconhecerem – como pertencentes – tessituras fora do padrão, falharam no objetivo para o qual foram projetados: virar as páginas. Preso à repetição é quase certo que eu me desconstrua, a mim e também aos poetas. O escafandro, descubro, acaba de travar-me a saída, o que me é totalmente irrelevante.

− Posso pedir-lhe, a você distinto leitor, para virar a página?


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