Último mergulho

de Leonardo Nóbrega

Antes eu passava as tarde inteiras sozinho na escada. Tudo que me distraía eram uns bonecos e livros.

Terminado de almoçar, ia tirar a farda da escola quando escutei a porta do apartamento da frente se abrir. Espiei pelo olho mágico. Tinha minha idade e não carregava nem livro nem boneco. Empurrei a porta e logo que sentamos na escada lhe mostrei páginas e mais páginas. Já vi coisa muito melhor, foi o que ele me disse. E como que não estivesse surpreso, continuei a passar as páginas.

Que boneco é aquele? Ganhei do meu tio, respondi. O meu tio ganhou do pai dele, é muito antigo. Notou então todo aquele aspecto robusto da roupa e sorrindo me disse que aquele boneco era seu avô.

Fiquei fascinado ao saber que aquele troço todo preso à sua cabeça, aqueles tubos, o vidro, tudo servia para mergulhar. Nas minhas tardes atirava o boneco do alto do corrimão da escada e deixava que caísse no chão, rolando vários degraus abaixo sem sofrer nenhum dano.

O seu avô tinha morrido assim, em plena aventura no fundo do mar, um herói. Prometeu me mostrar a roupa de mergulho. Mas só de madrugada. Era quando todos estavam dormindo.

Fui para casa jantar. Depois enchi um balde de água e fiquei afundando o boneco. Ele afundava e soltava bolhas. Tirei-o da água, sequei, e como o tempo não passava, voltei a jorgar novamente, várias e várias vezes.

Quando deu a hora marcada fiquei como um vigilante preso à porta. Escutei então uma leve batida, abri e fomos para a escada na ponta dos pés. Não trazia ainda a roupa. Total silêncio ou é o nosso fim – assim ele falou e me deixou sozinho.

As luzes na escada piscavam e projetavam minha sombra na parede. Os vultos que passavam se escondiam, não os conseguia ver de verdade. Virei-me com um barulho. Não era ninguém. Só conseguia pensar que ele estava mexendo nas roupas do avô morto, pensava no espírito do avô e no sono, muito sono. Encolhi-me num canto da escada, agarrei meus joelhos e fiquei vigiando a minha sombra na parede. Passei as mãos várias vezes nos olhos para não me deixar dormir e entre um fechar e outro de pálpebras pude ver a sombra gigante do meu boneco projetada na parede. Virei e o joguei sobre o corrimão da escada. Pensei tê-lo visto se mexer e corri para casa: joguei-me embaixo do lençol.

Nunca mais quis falar com meu amigo, e o boneco desde então está guardado fundo no armário, longe de qualquer tentação.

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