A uma Passante

de Abilio Pacheco

Avanço zumbizando pela – apressado – multidão (a multidão que é um imenso nada), desvio-me de ombros e braços – retorço-me, contorciono-me – e sacolas infladas de compras.

Evito – em vão – molhar o dorso do calçado – minúsculos lagamares –, a bainha da calça – em vãos de pisadas – , meias e pés.

Ergo – minha passante – meu olhar exato ao teu e sigo. Quarta – dois de maio. Gravei teu rosto!? Teu cabelo preso!? Três passos após, a felicidade curta – a mesma – outra vez (multidão de imenso nada), em síncrono viramo-nos.

Eu deveria, para reter – como Zambraia – , fechar os olhos, a tua face. Usava batom? Tinha – é certo! – delineada a sobrancelha. Como num duelo – (multidão de indiferentes padrinhos) minha terceira (última?) felicidade curta – miramo-nos outra vez.

Que impulso… que lógica nesses vinte segundos?

Não fecho – é impossível – os olhos e sigo (ah! multimensnada!) meio desperto.

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