Assoalho do Inferno

de Maurício de Melo Júnior

Fechou a porta trancando o sentido da vida longa, cansada. Tudo morto e enterrado ao girar da chave, ao ranger da fechadura. Ganhou as ruas com o peso acumulado durante mais de oitenta anos. Deixaria as pesadas chaves do prédio secular na sede do Governo. O burro amarrado ao gosto do dono. O último gesto da patente de coronel da reserva. Apagaria o passado e a construção inútil de toda uma existência.

Quando saiu do cinema desejou um uísque. Nenhuma outra bebida acalmaria a ebulição de suas veias. As ideologias envelhecidas na renovação perpétua dos desejos. Marx, o mau profeta. A figura romântica de seu mito heróico, com boina e charuto olhando o futuro na certeza de quem não comete erros, desbotou na velha camiseta de algodão. A emoção urgente da tela não reconstruiu o mito, mesmo quando deitou a humanidade sob seus pés de homem sem pecados. Tudo tão sem vida. Na cabeça do já não mais moço que agora se dirigia ao bar já não mais cabia a força do olhar endurecido, do coração aberto à compreensão.

O mundo caminha uma doída marcha centenária, um pouco mais ou menos. Agora a verdade é concreta, palpável. Nada se esconde nos desvãos da história, na narrativa dos vencedores, na certeza dos escribas. Um jorro de depoimentos, memórias revisando a vida vivida, não passada. Um mundo novo num alicerce de lama coberto com uma suave camada de barro pouco endurecido pelo sol. Qualquer pisar destrói uma crença de seda. A cabeça rodopiando enquanto se afastava da sala de projeções. Carecia de uísque.

Chegaram ao bar quase juntos e sentaram-se próximos, dois homens que nunca se viram antes. O Coronel diante da cerveja a mourejar sua dor. O Revolucionário de Ontem balançando o copo com gelo e uísque. Um duelo que se anuncia no lamento de um tempo em que os dois se emprenharam de ideais enquanto o mundo mudava de certezas.

O calor e a idade não permitem mais extravagâncias. Também sou do uísque, mas tenho que ficar na cerveja. Desculpe se atrapalho. Gostaria de conversar?

Tomado por uma estranha ternura, apontou uma cadeira vazia. Acenou para o garçom.

Não atrapalha em nada.

É que lutei muito na vida. Lutei de verdade. Falaram-me de um mundo distante e infestado de maldades; um mundo que poderia nos infectar. Era preciso defender os princípios humanitários. Acreditei. Tomei navios e armas, atravessei oceanos e postei minha vida na direção de uma bala que – não sei se alegre ou triste – nunca vi chegar ao seu alvo.

Na juventude se acredita em tudo. De longe vi revoluções e torci pelos novos heróis do mundo. Fui às ruas em passeata. Minha cabeça esteve a prêmio, mas era um preço tão curto, irrisório, que nunca ninguém se preocupou em conquistá-lo. Sobrevivi, como tantos outros, movido pela meritória intenção de ver a terra da promissão espelhada mundo a fora.

Mais ladrilhos para o chão do inferno. Também contribuí para a obra e quando dei por mim, estava sozinho, fechando uma porta. É sempre essa a recompensa. Uma porta fechada em nossa retaguarda e pela frente o vazio.

Engraçado. Meus heróis também me emprenharam de ilusões. Quando dei por mim, todos tinham a mesma idade dos algozes. As faces sob as barbas eram as mesmas. E pelas paredes corria o sangue de corpos estendidos. Todas as horas perdidas, nada além de uma imagem épica no cinema.

Outro dia morreu de fato um companheiro das antigas. Éramos apenas cinco no velório, contando morto. Vi o círculo fechado. Toda minha vida, toda a vida dos companheiros das antigas era uma nota de pé de página num livro de história. Trocaram o nome de todos os heróis e uma chave pesava em meu bolso, em minhas poucas lembranças. Nem a família me guardava mais na memória. Durante três dias percorri solitário os salões. Velhas medalhas, tecidos desbotados, artefatos dilacerados na ferrugem, uma bandeira desfiada. Uma camada de poeira sobre o chão e as aranhas já se mostravam com ousadia. Mais ninguém entrava naquele lugar. Era o fim.

Meu caminhar, como o dos parceiros que não morreram ainda, se deu pelas ruas. Essa gente indiferente que passa ao largo do Museu me despertou para o abismo. A inutilidade de meus gritos. No fundo pensava que tudo poderia ressurgir em uma estranha fogueira. Meu mundo morto teimava em beber a minha seiva vital. Queimei minhas últimas esperanças sentindo a fome desabar sobre o Caribe. Um sopro forte jogou no mar as cinzas da dignidade. Agora, quando saí do cinema, roçou em minha pele a certeza de que já não há nobreza em nada e uma puta bem instruída rir para os turistas. Não apostei minhas fichas de juventude nesse jogo. Era o fim.

Os homens atapetaram com suas mágoas o chão da cidade.
Talvez não voltassem a se encontrar.


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