Fotografias

de Leandro Resende

O olhar fixo mirava a rua, do sexto andar. Era uma janela, um olhar, uma rua. Copacabana listrada em cobre, em vácuos negros da escuridão e feixes de ouro ou um metal de grande beleza de pouco valor. Pequenos pedaços do cotidiano guardados numa imagem sem movimento, quase foto quase madrugada. Entre quinas e pontas, se via do sexto andar a vida do mar, no colo da praia. O mar, uma criança rebelde da natureza, nem sorri nem chora – é um rosto neutro e leve. Criança ora com cara de pai ou moleque.

Da janela se via pouco do mar. Uma escuridão que vem nascer espuma quase branca ou prata – que também vai se fazendo, com idas e vinda, monótona, foto.

O cobre, o ouro e o outro metal de menor valor e de boa cor atravessavam a janela do apartamento, encontrando as lâmpadas desligadas. Todas as cores se entrecortavam. E numa das paredes, o quadrado da luz da TV era jogada e ficava, entre o claro e o escuro. Nessa parede, a TV tentava existir, com imagens sem graça de gentes sem graça que riam como felizes atores dessa gorda solidão. Tudo, menos as cores na parede do apartamento, era dissimulado.

A campanhinha toca. A pizza. Quatro queijos. Obrigada.

Era para ser uma noite de amor. Ele não veio. A febre, talvez emocional, o substituiu. Um pequeno terremoto subiu pelos pés. Sem nobreza, mas ainda um dandy. Todo estético, não veio. Todo bem vestido, falante, culto, não veio. Ela assiste o mar, assistia Copacabana em ouro e cobre e outro metal menos nobre.

Ela, em febre, assiste a vida estacionar no sofá. Em pouco tempo, era foto.

A pizza parou pela metade. Uma bela foto na mesa. Catchup, mostarda e um copo pela metade. Foto que ali se movimentava. Luzes cobres, ouro, outro metal. Quadrado branco e preto na parede. Barulho da foto do mar. Alguns tombos, trombas d´água que surravam o colo de areia.

O telefone toca. Engano. Não é não, aqui não tem ninguém. Ninguém com este. Isso, não tem ninguém com este nome. Já disse. O senhor ligou errado e não precisa. Onde eu moro? Não entendi. Não, é aqui, senhor. O que o senhor quer dizer com isso. Ah. Tudo bem. Não precisa se desculpar. Tchau. Tudo bem. Tchau. Tchau, boa noite. Deve ser outra pessoa em mutação, tornando-se foto, já em desespero, procurando alguém para conversar.

Ela ainda acha que ele chega.

Ela ainda espera. A febre aumenta. E cada vez tudo era mais foto do que cena. Se ele chegasse, tudo seria filme. As fotos se mexeriam rapidamente, numa composição, um terremoto remexendo placas rochosas, ondas sísmicas disfarça ansiedade-desespero em bocejos falsos no subterrâneo de cada corpo.

Ele não chega. A madrugada chega. Tudo já era foto. Placas tectônicas a espera de terremotos. Por enquanto, só fotos.


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