Não Seremos Felizes Semana Que Vem

de Rita Cabral

Meu último pensamento antes de morrer foi a possibilidade de o ônibus perder o freio e despencar morro abaixo. Antes, eu estava lembrando daquele caso de amor funesto, um desastre desde o início. Um desastre maior do que este que estava para acontecer. Lembrei que os vizinhos engendravam os meios mais mirabolantes para assassinar-me sem deixar pistas. É claro que eu não concordava com os motivos. Eles reclamavam que eu ouvia música num volume altíssimo e, também, que minha voz, que tentava acompanhar os acordes, era desafinada.

Acho que vivemos em um mundo sem amor e aquelas pessoas eram a prova do meu ponto de vista. Eles não compreendiam o que é o amor. Não sabiam que eu precisava que a música estivesse alta, num volume mais alto que os meus pensamentos, que os meus sentimentos. Que eu precisava cantar, desafinada, que fosse!, para evitar a explosão do meu peito.

Poderia deixá-lo explodir e espalhar seus pedaços por aí, pelas ruas, respingar nas pessoas. Ah, o mundo ficaria melhor. Mas eu não fiz isso porque quando você chegasse era preciso que o meu amor estivesse nas palavras, nos olhos, nas mãos que abriam a porta, na roupa perfumada para receber seu abraço, nos pés que sempre caminharam ao seu encontro.

Agora, que o ônibus perdeu o freio, acho que não seremos felizes semana que vem.


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