O Besouro

de Susana Fuentes

– Tem um besouro aí! – Onde? – Aí no seu pé.

O besouro andava devagar, tomava a direção contrária ao do pé da moça, ainda assim, sua vida sob o escudo colorido estava ameaçada. É cedo. No ônibus rumo a São Cristóvão, todos vão para o trabalho. A mulher a meu lado no banco perguntou: por que não deixam o besouro em paz? Essa outra não tem mais o que fazer? Voltou-se para mim, estava no ônibus porque, assim como eu, ia visitar alguém no hospital da Quinta da Boa Vista.

– Não tenho troco. Disse a trocadora sem trocados ao moço que lhe estendia uma nota de dez reais, em seu olhar desamparado. Intransigente, rigorosa em sua função, dava ordens ao motorista, não o deixava fazer algumas gentilezas, como permitir a um passageiro a permanência num dos bancos da frente. – Tem que passar pela roleta!

O besouro não sabia, pegava o ônibus errado. Talvez, se estivesse noutra linha, Laranjeiras, Jardim Botânico, Catete ou Glória, seria protegido, devolvido à natureza. Mas esses confrontos da violência urbana são sutis, a mulher matava no besouro a minha humanidade, mostrava seu desprezo pela minha preocupação, culpava-me por alguma coisa na sua vida, naquele instante me odiava. A mulher que ninguém tinha visto até então, e sentada perto da porta não fazia parte da conversa. Nessa hora, lembrei-me de algo que uma amiga costuma dizer, sem que ninguém lhe dê crédito, pela severidade de seu julgamento: “o ser humano não presta.” Nessa hora, pensei, repetindo mentalmente o gesto de basta com as mãos, é, não presta. Foi assim. A moça loura de uniforme e sandálias de salto alto e largo que o besouro de forma alguma ameaçava (sandálias cujo relevo é acrescentado a toda sola, e não apenas ao calcanhar), ficou surpresa com meu grito: não mata, não mata! Deixe-me atirá-lo pela janela, ali na árvore. Sem jeito, desculpou-se:

– Ah, só estou empurrando esse bicho para a escada. Porém, uma outra mulher, sentada no banco perto da escada, sem pestanejar acabou com a conversa, bateu a sandália de salto mais grosso e alto que o da loura de uniforme, e deu fim à vida do besouro quase a ponto de ser salvo. – Eu mato mesmo, foi o que disse completando o golpe. E a trocadora se interessou: – O que era?

A mulher ao meu lado compartilhou da minha dor:

– Era um besouro dourado.

A trocadora deu de ombros. O assunto morreu ali, menos para mim e para a nova amiga a meu lado. Trocamos mais algumas idéias na viagem a caminho do hospital:

– É, ser humano não presta.

Ela ainda se mostrava indignada, e repetia a frase, para meu espanto.

– Imagine nossa cidade, onde vai parar. Agora já está como está, sem compaixão, gente que não dá bola para os outros, imagine se vão se importar com as coisas delicadas da natureza.

Pronto, o ódio estava instalado. Encostados os dois fios de vida, uma vida entra de sola na sandália bruta. O besouro, não o vi mais. O pé que interrompeu aquela vida ínfima em seu percurso, saltou no ponto seguinte, antes tivesse ficado em casa nesse dia.


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