Sem erros

de Ana Cristina Melo

Ele teclava o computador com celeridade. Recusava-se a olhar o canto do monitor ou o próprio pulso, para saber quanto tempo ainda tinha até a manhã seguinte, quando deveria estar pronta a alteração no sistema contábil que dava manutenção.

Tornou-se programador de computadores aos dezoito anos, na mesma época em que desejara ser músico. Mas a origem humilde lhe alertava diariamente da ampulheta que todos nós carregamos; a areia escorre a cada dia sem que tenhamos domínio sobre ela. As horas extras e as noites em claro, no ambiente frio do escritório, não diminuíram nem quando se casou ou nasceu sua primeira filha; não que faltassem reclamações da mulher, mas o que não podia deixar faltar era o emprego, pois no dicionário do gerente não existiam as palavras casa nem família. Aos trinta anos, era um ancião para o mercado de trabalho.

Acabara de conseguir a última compilação do programa, quando o monitor apagou. Só lhe veio um pensamento: estaria salvo seu trabalho? Relaxou ao se lembrar que o fizera antes de pedir a depuração dos erros. Livre do fantasma, pôde se questionar o que teria ocorrido, e só então percebeu que não havia uma luz sequer à sua volta. Estava numa completa escuridão. Gritou, mas sua voz ecoou na sala vazia e voltou lhe ferindo os tímpanos. Não sabia dizer se a dor de cabeça começara naquele momento ou bem antes.

Sem qualquer referência ou foco de luz, se levantou e, no segundo passo, acertou a perna na mesa. O palavrão dito e devolvido a ele próprio pareceu-lhe estranho. Resolveu se sentar novamente. Tentou imaginar a disposição do escritório e não conseguiu. Buscou em sua memória o que existiria sobre sua mesa ou nas gavetas, e nada lhe vinha com certeza.

Começou a sentir uma agonia pressionar o meio do peito, enquanto a cabeça latejava cada vez mais. Lembrou-se que no corredor onde estava, na outra extremidade da sala, havia uma janela. Deslizou a cadeira para o lado até esbarrar num armário. Com bem mais cuidado, tateou o móvel baixo que corria pela parede, até chegar no fundo da sala e achar a cordinha da persiana. Girando-a, pôde sentir as frestas tornando-se paralelas: nenhum foco de luz vindo da rua. O peito doía mais forte, a cabeça idem. Para se acalmar, concluiu ser um apagão. Mas como chegaria em casa? A pergunta o fez se lembrar da esposa e da filha. Sua mente parecia também afetada pelo breu, pois as imagens das duas lhe vinham esmaecidas. Não conseguia descrever seus rostos, os detalhes. Tentava se lembrar da voz, para que essa resgatasse suas lembranças. Nada. Por um instante, teve medo de uma cegueira. Não temeu pela falta da visão, mas pela perda das lembranças que o salvariam de uma escuridão total. Nessa hora, sentiu o peito se romper.

Os seguranças, atraídos por um barulho seco, entraram na sala da Informática. Sabiam que sempre havia alguém virando a noite em frente àqueles computadores. No canto da sala, encontraram o monitor ligado, com linhas que lhes eram hieróglifos, e no centro da tela uma mensagem: “Compilação terminada. 0 erro(s)”.

— Não tem ninguém aqui. Só esse trem que pelo jeito ficou ligado a noite toda, Zé. Ainda bem que não faltou luz.
— Carlos, corre aqui, tem um homem caído entre as mesas.
— Virgem nossa, é aquele moço que é meu vizinho. Tava trabalhando aqui ontem. Quando saí de casa hoje, ainda vi a menina dele. Uma formosura loirinha que tá dando os primeiros passos…
— Não é hora pra isso, homem, corre pra chamar alguém, pois ele ainda está vivo!


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