Antes que a infância poente

de Valéria Santos

Era um contador de estórias. Usava o cabelo longo, esbranquiçado, a barba ruiva, um tipo esdrúxulo, que provocava riso e alguma ternura. Gostava de tomar um dedo de pinga no bar do meu avô, que ficava defronte à única praça do vilarejo. Todo fim de tarde eu sentava na calçada, junto aos vizinhos, que enfileiravam cadeiras e mesas, alguns para jogar dominó, a maioria para acompanhar as narrativas do velho. Era o ponto alto do meu dia, e numa dessas prosas, ele falou do rapto que sofrera, há quinze anos, por um disco voador.

Como eles são?
Iguais a você e eu, mas não têm boca, nem sexo.

Enruguei a testa. Minha alma de criança não compreendia como era possível viver sem boca. O sexo não devia ser tão importante, mas a boca?

Não falam?
Pra quê, minha filha? Os humanos só usam a palavra para mentir e declarar guerra.
Comem?
De jeito nenhum. Existe coisa mais primitiva que comer? O ato de estraçalhar o alimento é, por si só, uma grande selvageria, não concorda, Dona Gertrudes?
Talvez… E como fazem bebês?
O sexo está no mesmo plano do alimento, minha comadre. Que sujeito na hora do arrocho não diz, quero te comer, vadia?

A mulher soltou uma gargalhada boa, ajeitou os peitos abundantes dentro do decote, isso eu não sei, caro senhor, pois desde que fiquei viúva, há dez anos, não dou cabimento a homem nenhum de encostar as malícias no meu corpo. As vizinhas entreolharam-se, as más línguas amarradas na boca, todo mundo sabia dos gritinhos que varavam a madrugada, quando Dona Gertrudes abria as portas, e todo o resto, a um comerciante de Sertânia, que vez ou outra fazia negócios por aqui. Mamãe lançou-me um olhar enviesado, vá pra casa, Clarice, e eu obedeci.

De volta ao quarto, imaginava um disco voador cheio de luzes multicores, pousando no pátio da escola, a levantar as saias das meninas, fazendo dançar as folhas secas, levando a galera toda pra lua. Às vezes era possível deixar a janela aberta, livre da intromissão severa de muriçocas e morcegos. Ninguém esquecia a estória do moleque travesso que fora mordido nas carnes do pescoço. Ele tinha o hábito de trepar nos galhos de um velho abacateiro, que fincara suas raízes imponentes no quintal de Seu Inácio, desde que o vilarejo fora erguido no século passado. Era uma árvore majestosa em sua fartura de sombras, balanços e aromas que o vento soprava nas ruas. O menino, que ninguém sabia de onde viera, colhia os frutos e às vezes os jogava na cabeça das pessoas. Agora, vegetava na cama de um hospital, não falava, não comia.

Eu tinha certeza que o marciano morava na lua. Da janela podia ver o vulto esguio, sentado no pico da mais alta montanha. As pessoas discordavam, é São Jorge, mas quem era tolo para acreditar nessas bobagens? Era um marciano e pronto. O velho dizia que ele circulava entre nós, recolhido na calmaria do vilarejo. E como se chama? Márcio, ora bolas, que outro nome haveria de ter? Ríamos gostosamente de nascer água nos olhos, eu tinha fé no contador de estórias, até que a televisão transmitiu a imagem do primeiro homem a pisar na lua. Foi uma dor salpicada no meu peito, mas o velho se defendeu, é o marciano disfarçado de astronauta.

Quando meu pai viajou para São Paulo, eu sonhava que ele voltaria com um saco cheio de brinquedos, igualzinho ao do Papai Noel. Mas havia uma carta amassada dentro da escrivaninha, no quarto da mamãe, “Conheci uma mulher na capital e me apaixonei. Invente uma estória qualquer para a menina. Adeus”. Foi assim. Papai Noel nunca deixou presentes na árvore de Natal. O velho dizia que o gorducho dava preferência a lugares fartos de neve, para apagar o fogo no rabo.

Não diga asneira.
Ora, Clarice, todo mundo sabe que ele entra nas casas pela chaminé.

Hoje estou envelhecida, meu marido toma conta do bar. Quando os netos passam horas jogando um tal de game station, negligenciando as tarefas escolares, invento estórias de um marciano que pousa no silêncio da noite, levando crianças burras para o limbo sideral. Eles riem de dar um nó na barriga, e penso, já não se fazem crianças como antigamente.

O abacateiro foi tombado pela prefeitura no início dos anos noventa, o casarão de Seu Inácio deu lugar a uma fábrica de produtos químicos. Estive entre os curiosos que foram assistir à morte da grande árvore e notei a imagem de um coração entalhado no tronco, preenchido das iniciais C e M.

O velho contador de estórias desapareceu do vilarejo quando completei quatorze anos. Chorei por três noites e um vestido de renda.


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