de vidro transparente

de Gerusa Leal

era vermelho o dragão

e todos na pracinha queriam saber detalhes da visita do encanador voltando do chamado à casa. Foi desentupir a pia da cozinha. A balconista da padaria soubera pelo carteiro como se chamava. Vira no sobrescrito da única correspondência entregue no endereço em um ano e pouco. Quase rompera com o namorado por não ter prestado atenção também no nome do remetente nem de que parte do mundo fora encaminhada.

Ela pediu informação sobre outro profissional. O encanador indicou. No dia seguinte Tião era a pessoa mais assediada.

Para que precisava de um marceneiro? Vai fazer uma estante para livros no quarto dos fundos. Contava tudo que via na casa, potes de vidro transparente cheios de cristais coloridos, quadros nas paredes com figuras e dizeres que ele não entendia, um objeto pendurado na porta de entrada tilintando com o vento, até uma espécie de espada em miniatura em cima de uma mesa de canto. Servia para abrir cartas, soube pela moça. Que cartas se ninguém escreve para ela?

Tião era casado, pai de dois filhos, ainda forte e disposto. Andava sempre limpo, nunca faltava um botão na camisa. O eterno chapéu de feltro que não se sabia se era cinza ou um preto desbotado, que tirava ao entrar nas casas dos clientes em sinal de respeito. O filho mais velho aprendera com ele o ofício, seguira-lhe os passos. Agora cumpre pena em presídio na capital. Meteu-se com as pessoas erradas. O mais novo vivia para beber e virar a noite nos botecos. Embuchara uma moça e Tião abrigava e sustentava os quatro: o filho, a nora e os dois netos. A mulher limpava, lavava, passava, cozinhava na casa de quatro cômodos. Cada dia mais muda. Era para aquilo que trabalhara a vida toda e continuava trabalhando?

Mas agora estava ali, todos ao seu redor. Crivado de perguntas, não se fazia de rogado. Alçado à condição de testemunha privilegiada desfrutava, sem cerimônia, da atenção que o status de informante lhe granjeava.

A moça lhe dava água em copo de requeijão. Um dia, pouco antes da hora do almoço, viu ela se servir de vinho na taça grande, bonita, devia ser de cristal. Até água numa taça daquelas ficava gostosa. Nem tanto quanto a da moringa, bebida na caneca de flandres do barraco da avó quando era criança.

O que mais chamava a atenção era a mesa baixa, pequena, quadrada, no canto da sala. Lá se misturavam objetos desconhecidos. Não saberia descrevê-los direito, para aflição dos atentos ouvintes. Havia a bandeja retangular em madeira, cheia de uma areia branca e fina feito da praia onde um dia fora com o pai entregar um armário encomendado.

Acabava de completar dezesseis. Assim que viu o mar pela primeira vez sentiu-se perdido, indefeso. Pregado no chão, a boca aberta. Quando uma onda mais afoita tocou-lhe os pés, deu um pulo, caiu sentado na areia. A risada só não o fez sentir mais envergonhado porque a mão estendida era de amizade e boas-vindas. Antes que conseguisse responder ao gesto, a moça sentou ao lado, começou a brincar com a areia, riscando desenhos com os dedos, espalhando, voltando a desenhar.

Também poderia ser sal na bandeja de madeira. Sobre esse sal, ou areia, pedras azuladas. Um ciscador também em miniatura na borda, ao lado da figura de um bicho diferente. Era vermelho. Os ouvintes atentos decidiram ser um dragão.

Tião só conhecia o dragão de São Jorge, que era verde. Pelo menos o da imagem de louça no altar da tia Filó era verde. Na casa da moça, era vermelho o dragão. E apesar de parecer primo do outro, não era o mesmo dragão. Mas preferiu não contrariar.

A cada dia um rol de objetos estranhos espalhados por mesas e prateleiras pela casa toda desfilava pela imaginação da platéia cativa, materializados pelos relatos do marceneiro que


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