Noite de Insônia

de Adriana Cunha

A cidade dorme, como dormem todas as cidades numa noite de domingo. Deita-se e o delírio tem início, ocupando todo o lugar do sono e dos seus sonhos. Os olhos voltados para a escuridão de si mesma, para o absurdo da constatação: está viva. Por quê? Para continuar vivendo a mesma vida todos os dias e vez ou outra entregar-se à fuga numa taça de vinho. Vinho! E música. Já com a taça na mão, pensou no tema de uma noite de insônia de uma mulher farta de si mesma. Escolheu o disco e deixou-se levar pela inebriante melodia. Tango é para se dançar a dois. Mas ela tem como par o mais confiável de todos os pares: a solidão. Lembrou-se de uma frase de um autor de quem não se lembrava mais. “O tango é um pensamento triste que se pode dançar”. E com sua taça de vinho na mão, ela dançou sua solidão.

As lágrimas salgadas misturavam-se ao demi-sec das uvas cabernet sauvignon. Uvas cultivadas no Chile com o propósito de serem saboreadas, brindadas por pessoas felizes. Triste sina ao serem degustadas por uma boca regada a pranto. Mas não era sua culpa, algumas uvas terão esse fim que talvez possa ser mais nobre do que as uvas destinadas ao paladar da felicidade. Assim também acontece com o tango, que pode ser tocado para embalar a sensualidade dos amantes ou, simplesmente, para marcar os passos solitários de uma mulher que dança sua desilusão.

Não lutava mais contra a sua solidão. Ao contrário, deixou-a crescer, abraçou-se a ela ao ritmo do tango e conseguiu encontrar algum conforto em seu coração. “O tango é um pensamento triste que se pode dançar”. Ela podia dançar o seu pensamento triste e encontrar plenitude naquele momento. E dançou o seu tango e bebeu o seu vinho na sua noite de insônia e sentiu-se a única pessoa a ser observada por Deus naquela noite de domingo em que toda a cidade dormia.


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