Num Disco Banido

de Dheyne de Souza

Sentado ali, como um disco cansado e desavisado do som. Os outros móveis respeitando o seu silêncio pendido nos ombros, nos encostos, nas hastes como pós perdidos de si. A rua do outro lado da parede, jogando vidas ao tempo, gritando pressas, instantes sós, em amarras. Na cozinha um pingo d’água atrás doutro, numa canção de ninar a uma busca ilusória, a um amor desistido, após outro. O som do quarto era frio, parado, lasso, acuado, perseguindo uma sombra de gato, no escuro. A porta queixava um arranho, a janela um baço, a lua um véu.

Mas ele muito capaz ali, à espera. Não pensava, não. Não queria. Desejava tampouco. Mas sabia do a qualquer momento.

Foi quando ela entrou. Passou os dedos nos móveis, cantaram, foi rude. Da rua a água nos pés, tirou do cílio as gotas, ceifando no chão ranhuras pisadas. Na cozinha, violou a sequência dos pingos, cremou-lhes o contato escasso de peles, jorrou da torneira paixões devastadas e líquidas e deixou-as pecando o silêncio. No quarto, arranhou as paredes, faiscando nas unhas a tinta branca de gelo, rasgou um sorriso e aproximou-se dele.

Ele ali, incapaz. Girou o seu corpo a sua voz os seus poros com o hálito que fundia atroz nos seus dentes, ensaiou canções com os dedos, sem tocá-los. Ele ali, de uma capacidade involuntária, inválida e infeliz. Mas o seu corpo arriscava aplausos, como um espinho arranha canduras. Já não poderia dizer o quanto daquilo sonho quando ela entonou no seu lábio a ponta vermelha da sua unha de cal, como uma agulha pródiga num disco banido.


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