Desordem Tranqüila é Perfeição

de Erwin Maack

Assustado com o mundo chegou-me uma idade
em que dava patadas ao vento e chorava sozinho.
Escutar as mulheres e os homens falando
sem saber responder não dá muita alegria.
Cesare Pavese

Moreno, os olhos negros brilhantes enterrados no rosto, nariz adunco. Poderia ser árabe ou judeu, espanhol, português ou italiano. Ele se lembrava do pai apenas quando passou a morar em casa. Educou-lhe os modos à mesa. Exigia traje formal para as refeições. O pai nascera em Portugal, veio primeiro ao Brasil, emigrou novamente para os Estados Unidos e por aqui passou o final da vida. Conservador ao extremo, homem de palavra. Por isso, usava-as muito pouco. Sério e melancólico, com os mesmos olhos.

Assim que pôde, deixou a casa e foi morar em um puteiro famoso no interior do estado. E lá morou durante todo o segundo grau. Recusava-se a ficar no internato. Aprendeu muito, apaixonou-se loucamente. Viveu como rei. Construiu e habitou seus paraísos, tanto o artificial quanto o bem real. Numa viagem, a mulher mijou-lhe na face; salvou-lhe a vida.

Engajou-se nas lutas políticas do país. Filiou-se clandestinamente ao Partido Comunista. Gostava de História. Dava aulas em cursos de madureza. Estudou na melhor universidade da capital, formou-se em administração de empresas após nove anos de curso. Assíduo do diretório acadêmico e do Pilequinho. Conheceu mulheres mais velhas e viveu com elas, depois do colégio. Todas ricas e afortunadas. Casou-se com a filha de um tabelião. Viveram juntos até que o dinheiro e o amor acabassem.

Buscou a convivência paterna depois de alguns anos. Inteirou-se dos negócios que ele fazia. Importação e exportação. Homem de muitos contatos, usava-os para seus próprios negócios. Até que o pai quebrou. Quebrou por sua palavra, mantendo-a em prejuízo próprio. Faleceu deixando uma herança para a viúva.

Trabalhou em banco por pouco tempo. Foi muito elogiado pela inteligência e criticado por usar cachimbo e por não respeitar os horários estabelecidos no expediente. Foi demitido. Abandonou também a política após algumas experiências fracassadas. Casou novamente com uma executiva especialista em finanças, para separar-se algum tempo depois. Cansado das festas.

Apaixonou-se pelo Oriente. A forma de viver, a filosofia, a medicina. Aprendeu as técnicas de ginástica para o corpo e para a alma. Montou um espaço chamado Miragem. Reuniu iogues, espíritas, budistas e taoístas no mesmo lugar. Espaço de meditação. Reuniu seus livros sobre esses assuntos e os deixou lá. Não cobrava nada de ninguém, tampouco permitia aos professores que o fizessem.

Aprofundou o conhecimento de si mesmo. Perdeu o interesse pelas coisas. Desapegou-se. Dizia para não se alimentar expectativas. Deixou as drogas, as bebidas, o cigarro. Limpou o corpo. Uma barba oriental apareceu à medida que o cabelo se foi.

Casou com uma refugiada portuguesa, fugida da África. Foi morar na periferia da cidade, ensinando a prática oriental de viver. Deixou de lado o entendimento racional. Falho, incompleto, inútil. Dava suas aulas ensinando aos corpos o movimento natural. Deixou toda a compreensão racional da vida. A poesia ensina mais. Praticava meditação todos os dias. Buscava a integração com a natureza. “Tente explicar para o peixe que a água é composta de hidrogênio e oxigênio.”

Investiu toda a herança dos pais no bem comum. Incluindo o seu. Acabou considerado um guru por muitas pessoas, principalmente mulheres. Era um ser respeitável praticando o bem. Despojou-se dos bens. Aquele casamento tampouco resistiu.

Vendeu a casa. Carregou consigo toda a mobília da casa da mãe. Louça da época de Napoleão. Pinturas do pai. Cerâmica da mãe. Hoje está casado com uma mulher bem mais nova. Pele cor de porcelana, cabelos negros encaracolados, olhar arguto e castanho. Funcionária pública. Corpo escultural de ancas carnudas e pés e seios pequenos.

Hoje os tempos são de escassez material. Os cursos que dá mal conseguem sustentá-lo. Ele se afastou. Os amigos se afastaram. Deixou de conversar com eles. Está recolhido. Pensativo. Quase não sai de casa. Fechado para reforma.

Enfrentamos um assalto à mão armada. Três rapazes bem vestidos perguntaram algo quando eu estava lavando a calçada. Parei para ouvir e vi um revólver faiscando na mão de um deles. “Entre.” Encontrou meu patrão sentado diante da tela do computador e foi logo querendo dinheiro, jóias, e o jogou no chão. Bateu muito nele, trancou-o no banheiro e saiu à caça de objetos. Juntou um monte, amarrou em um cobertor. Bateu outra vez nele e o trancou. “Dinheiro”, pedia. Comeu e bebeu. Foi avisado de que o velho pulara a janela do banheiro. Jogou as tralhas por sobre o muro e fugiu.

Ele me levantou, fez um chá. Ofereceu-me uma xícara. Perguntou se estava machucada. “Não, estou bem.”

Dias depois foi chamado à delegacia para reconhecer os suspeitos. Não aceitou o anonimato. Queria olhá-los de frente.

Voltou, parecia satisfeito. Falou de um remorso e contou uma história para mim.

Dizia ter remorsos por não ter permitido à mãe que comesse tantos doces quanto quisesse. Dava-lhe apenas uma pequena cota diária, pois temia o diabetes.

A história de um Califa em Bagdá atendendo ao pedido de seu subordinado para viajar imediatamente a Samarcanda. Curioso, quis saber a razão dessa viagem de última hora. E o ministro contou ter visto – no mercado – a morte, muito branca, em trajes pretos e com um lenço vermelho no pescoço. Seus olhares se cruzaram e ele soube instantaneamente que iria morrer caso ficasse na cidade. O Califa, curioso mas não satisfeito, foi ele mesmo ao mercado, disfarçado, e, de fato, viu a morte e a inquiriu dos motivos pelos quais haveria de matar o vizir. Ela alegou que os olhares se cruzaram, sem qualquer intenção. E que hoje mesmo sairia da cidade e viajaria para Samarcanda.

Terminou a história e do nada disse: “Aia, deixei um testamento, em que você receberá algum dinheiro do que restar das coisas. Pelo amor e carinho com que sempre me tratou. Agora vá, por favor, fazer uma aposta na casa lotérica.”

Dois amigos vêm visitá-lo. Aviso que não está e não sei quando volta. Preferem esperar. Ouço:

“Que coisa, como o cara pode desaparecer assim? E as obrigações dele? Os problemas que deixou para os outros resolverem? Será que ele não se preocupa? Sempre disse para ele que a bondade que ele fazia era inútil. As coisas boas vindas de alguém acostumado a fazê-las perdem o valor. Somente se valoriza algo que é dado com muito sacrifício, conquistado ou roubado. Só dar não basta, o bem deve ser jogado na cara, vendido e trocado. Ninguém faz nada por ninguém, e quando faz todos tendem a aproveitar o máximo, antes da futura cobrança. Na Miragem as pessoas tiram os trocados da caixa das oferendas. Ele perdeu tudo, agora é um falido. Quem o respeitará? O respeito advém do poder de fazer o mal. Quando o bem é uma escolha, quando é um destino, azar de quem o faz.”

“Ele não está nem aí para isso tudo que você chamou de coisas. Bem ou mal. Ele precisa do amor das pessoas, do reconhecimento. Viveu em busca disso. E em todas as ocasiões que desistiu, percebeu o interesse da troca. Da coisa pela coisa. Sentia o medo em si e nos outros. O sentimento já não existia mais. O sentimento que é moldável, durável e, por isso, eterno. Que se altera segundo as condições ditadas pelo próximo. A nossa existência é baseada nas relações. As relações são transitórias até encontrarem seu objetivo. E a vida dele foi dedicada ao prazer de viver. De conversar. De ensinar e aprender. Caso contrário ele teria praticado o suicídio. Essa é a última ambição, a de não ter mais nenhuma; nós nos matamos quando descobrimos a nudez da nossa miséria, o nada que o amor nos revela. A vida só pede o que temos para dar.”

Essa noite sua mulher sai. Sozinha, vai a uma festa. Traja apenas um vestido de seda, vermelho, sobre o corpo nu. Ele encobre e acompanha seu corpo, como se fosse um véu sinuoso, coleando todas as curvas, reentrâncias e volumes. Oferecendo-se ao olhar pelos simples passos. Alto relevo. Baixo relevo. Um sapato negro de salto alto ao final do corpo. Ao sair, coloca uma echarpe que o patrão trouxe da Índia. Ele parece interromper por um instante a sua meditação e olha para o vulto que desaparece pela porta de entrada, construída em madeira de mogno.

Uma resposta to “Desordem Tranqüila é Perfeição”

  1. Non Liquet » Desordem Tranqüila é Perfeição Says:

    […] A  Histórias Possíveis acolheu um outro texto meu. Deixo aqui o link para vocês a conhecerem, bem como a outros autores, outras visões. Agradeço sua visita e eventuais comentários. Abraços. Trackback Link · […]

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