Vida e Paixão de um Descrente em Automóveis

de André de Leones

Odeio quem fez certas coisas em certos lugares. Odeio quem senta em cima da mesa numa sala de aula. Odeio quem me chama de queridinha. Meu ex-professor de Antropologia fazia essas duas coisas e outras mais e eu sinceramente queria morrer. O cara entrava na sala todo suado porque não acreditava em automóveis ou coisa parecida, acho que todo esse lance com combustíveis fósseis e defesa do meio ambiente e diminuição da poluição, enfim, o cara entrava na sala de aula todo suado porque ia pro campus de bicicleta, seis e meia da manhã e o sujeito, um professor universitário, um cara que fez mestrado no México, doutorado na França, ele chegava e entrava na sala todo suado, fedendo mesmo, nem dizia bom dia e se sentava em cima da mesa, as perninhas suspensas, balançando, e então ele olhava para fora como se a gente não estivesse ali, como se a gente sequer existisse, e perguntava algo do tipo o que é que a gente tem pra hoje mesmo. Eu queria morrer. Ele era o professor, ele devia saber o que é que a gente tinha que fazer, mas não, ele nunca sabia e nem se importava porque o lance dele era falar bobagens do tipo eu morro de vontade de entrar pro Hamas ou o onze de setembro foi um puta dia pra humanidade ou quem devia ser preso é o assaltado, não o assaltante. Eu queria morrer. Naquele semestre ele estava comendo uma menina da sala, uma imbecil fora do tempo e do lugar, fora da casinha, entende?, que andava pelos corredores com uns livros marxistas e leninistas dentro da bolsa falando abobrinhas e criticando tudo o que a gente fazia, ou seja, tudo o que ela não sabia direito o que era porque tinha passado a porra da vida inteira lutando pela causa do proletariado, isso em pleno século XXI, e eu queria morrer no dia em que precisei entregar um trabalho e fui até a sala do infeliz do professor e entrei sem bater porque estava escrito na porta ENTRE SEM BATER e ela estava com os cotovelos apoiados na mesa e ele metendo nela por trás, suando e bufando e gemendo, um nojo, os dois juntos pareciam uma porcaria de uma besta mitológica porque, eu preciso dizer, porque além de boçais eles eram muito muito feios, e ele me olhou com ódio e ela ficou envergonhada por alguns segundos e eu morrendo de rir por dentro. Fecha a porta, ele pediu. Eu fechei e disse meu trabalho. Deixa aí em cima da mesa e cai fora, queridinha. Eu deixei lá em cima da mesa e caí fora, mas não sem antes ouvir ele dizendo se quiser contar pra alguém pode contar. Na aula seguinte ele usou a frase de uma moradora de uma favela carioca para supostamente nos ensinar uma ou duas coisinhas sobre o que ele chamava de VIDA REAL. A frase era algo como você consegue imaginar o que é estar batendo uma vitamina de banana e uma bala atravessar o copo do liquidificador? e ninguém evidentemente estava prestando atenção às sandices que ele dizia sobre o POVO e não sei mais o quê, até que a pupila dele, a ativista tresloucada, ergueu a patinha esquerda e perguntou sorridente você quer se casar comigo. Ele a ignorou e ato contínuo perguntou a minha opinião sobre o estado de coisas da segurança pública nas grandes cidades brasileiras em geral e em particular no Rio de Janeiro. Eu estava de saco cheio, queria morrer, e disse bem, por mim a polícia podia passar fogo em todos esses pobres desgraçados. Você quer dizer, nos bandidos? Não, em todo mundo. Sem exceção. O assalariado de hoje é o assaltante de amanhã. Ele ficou realmente chocado com isso e não me lembro muito bem como ou por que truque de retórica ele passou dos morros cariocas para a questão árabe-israelense e perguntou você, queridinha, também acha que Israel devia dizimar todos os palestinos. Eu sorri e disse não, os palestinos precisam sofrer um pouco mais. Como assim, ele gritou. No momento em que eu ia responder, a menina berrou pára e começou a chorar. Todo mundo ficou paralisado. O professor se aproximou dela e perguntou o que é isso. Com a voz chorosa ela disse você não me respondeu, você não me respondeu, e depois ela se levantou e foi embora e eu ali, querendo morrer.

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