Abre a boca de um tamanho que falava dela mesma

de Daniela dos Santos

O buraco atrás do olho crescendo sem parar. Aumentava tanto e tão rápido que sugava em volta. Esburacou o próprio olho antes de parar de crescer. Nunca antes teve nenhum buraco tão vertiginoso. A não ser uma vez. Isso mesmo. Nunca, a não ser daquela vez teve um buraco tão vertiginoso. Se bem que não, da outra vez nem era tão vertiginoso assim. Não era atrás do olho, não era na cabeça, mas era mais frio e desconhecido.

Daquela vez, que foi a primeira, o buraco era na barriga, meio por dentro, meio no estômago, ou talvez nos pulmões, e não era bem um buraco. Pois é, era bem menos vertigem, mesmo. Era mais um frio, apesar de um frio bem vazio, assim.

Mas a pá era a mesma.

Ia dizer não. Não. Só isso. Ia dizer só isso, a boca aberta de um tamanho pra dizer não, mas não, não disse nada. Disse só assim, mesmo. Nada. Nada, não. Nada.

E nada, nada, o buraco vem, esfriando e crescendo. Ela, mesma, crescendo esburacadinha, coitada! Coitada! Pensava isso, mesmo: coitada. (sua mãe engravidara assim: de uma coitada só; a mãe de seu irmão também. coitadas)

Enquanto crescia, corria por um corredor escuro e pulava de uma janela coloridíssima, como uma igreja.

Mas, bem, o buraco: vertiginoso, do lado de trás do olho direito, que era não e virou nada; o nada crescendo vertiginoso por trás do olho direito, a cabeça todinha caindo pra trás, vazia e esburacadinha. Você é o mesmo do outro, só mudou de corpo. Se ao menos de corpo, eu mudasse! Mas é só de idéia, só de idéia que eu mudo e mesmo assim, nada. Nenhum não. Não, nada, não.

Abre a boca de um tamanho, pra ver se diminui a pressão e nada. Nada, não.

Vai falar alguma coisa? Não. Só aí que sai o não, que se nada sai, ele fica perguntando, a pressão sobe e explode de novo: NADA! A boca aberta de um tamanho e bem calada. Olha dentro do buraco da boca, que vê até o coração, até a idéia mudando, mas ela, mesma, pois é, é assim, mesmo, não diz nada.


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