Àquele corpo que cai

de Dheyne de Souza

Àquele corpo que cai como um pôr de sol banido, como o último raio infiel que beija a folha recém-morta, como matizes da pele da terra benzida para o breu sem prece.

Àquele corpo maldito, quebrado, rarefeito como o céu de uma única estrela, como o amor negado das nuvens deixadas no segundo plano do negro, como o cinza baixado no ar entre o olho e o cinzeiro.

Àquele corpo estriado, mantido, cobalto, criado sob asas de pós, como uma lua programada, como uma noite sustentada pelo silêncio que escorrega numa madrugada de gelos.

Àquele corpo passageiro, gemido seco, trêmulo, suado, refeito, como o orvalho gozado e estendido na ponta dos leitos.

Àquele corpo acossado, sólido e armado que cumprimenta a manhã, como a janela semifria que espera pra sempre, como a flor, o chapéu, a covardia, o passeio que se esquecem de rir, como o trânsito soprado nos poros ainda desacordados e iludidos do bem, como o amarelo guiado, sedento e arfado com que o sol não responde.

Àquele corpo expandido que, em algum momento assistido, é um túnel no buraco estrondoso da luz.

Àquele corpo que cai, como uma voz de veludo no torniquete da vida.


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