D.

de Maurício de Almeida.

Não há nada de novo na noite (que não é escura, mas azul): o sono distante apesar do silêncio plástico de surdez, um bafo morno sobre meu corpo suado e a mesmice de postes cravados no meio do nada, iluminando o marasmo mentiroso de dois ou mais cães fingindo sono, rabos envoltos em si, focinhos cavucando a calçada, mas há qualquer coisa estranha ao meu lado, uma confusão desnecessária de lençóis e travesseiros, uma pilha de sonhos intimamente catastróficos confundindo rostos e medos, misturando palavras que não se diz senão dormindo, há alguma coisa ao meu lado tomando forma – não um armário entreaberto nem livros de páginas marcadas e frases riscadas, não meus pés procurando movimento nem os joelhos na difícil tarefa da flexão, mas outro corpo, sim, outros pés ao fim do colchão procurando movimento, outro peito se debatendo na sistemática obsessão de respirar quando se acorda, tateando alguma vida naquela noite de cães farejando o óbvio, outro corpo enfim tragado em cuidado à realidade nebulosa desta sala (e justamente por isso não digo

– a noite é azul

como disse horas atrás).


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