de vidro transparente

de Gerusa Leal

e o gosto borbulhava na língua

no que ela achava tanta graça? Eu por acaso falara alguma bobagem? Não era assim que se tratava as moças dali? Continuava a rabiscar desenhos na areia, agora quieta, de vez em quando olhando ao longe, de onde saíra aquele rapaz tão esquisito? Sumia e voltava, aparecia diante dele ondulando, nem sentia frio também, de onde ele vinha?

As pedras emergiam brilhantes e então o mar cobria tudo outra vez, e outra vez se afastava, ele não sentia os respingos no rosto, as ondas espumavam na língua, e marulhavam no peito, a cabeça vazia, vazia, os olhos viam os sargaços e o caranguejo sumindo na toca, os ouvidos ouviam o vento nas palhas dos coqueiros mas quanto tempo vai ficar? Quanto tempo?

Vim com meu pai, eu sei, está lá em casa montando o armário, ajudei a fazer, escurecendo, está, primeira vez?, escurecendo, não conhecia?, escurecendo, minha mãe, meu pai, escurecendo, um café?, café, escurecendo, de longe?, escuro, o vento, o cheiro, maresia?, de voltar, voltar?, para casa, tomar um café, minha mãe mandou chamar, antes de seguirem viagem. Seu pai disse que vieram de longe. De longe, é.

O ruído das ondas, os pés afundavam na areia, a moça era bonita. Agora estava calada, mas tão próxima que podia tocá-la, se quisesse, e não parecia preocupada. Quis dizer alguma coisa, mas o cheiro era de maresia, e o gosto borbulhava na língua, e a sentia aconchegada dentro do peito, os pés afundavam na areia, o ruído das ondas enchia a escuridão.

Você mora aqui há muito tempo? Nasci aqui. E o sorriso branco da moça clareava você nunca tinha vindo? Não, primeira vez. E nunca tinha visto o mar? Não, senhora. E ela riu-se outra vez por que se ria quando a chamava de senhora? Você é engraçado. E os dois pararam, e se olharam no escuro, e não se ouviu o ruído das ondas nem o vento nos coqueiros, nem se viam um ao outro, e voltou o ruído das ondas e do vento nos coqueiros, e os pés afundavam na areia, e a luz do poste na frente da casa deixou para trás o mar, o ruído das ondas e o do vento nas folhas dos coqueiros, abriu-se o portão, entrou-se na casa, ela mostrou onde ficava a cozinha, ele sentou ao lado do pai, tomaram um café com leite, comeram um pão com manteiga, a cozinheira recolheu a louça, o dono da casa entrou, acertou o pagamento com o pai, saíram pelos fundos, entraram na caminhonete, que negou partida na primeira vez, na segunda pegou e deixaram o quintal da casa.

Pela estrada de terra, o dono da casa havia ensinado ao pai um atalho, e por um bom tempo margearam o mar. Que ele não enxergava, era noite, nem ouvia, o motor da caminhonete fazia muito barulho, mas estava ali. E a imagem, indefinida, vinha como aparição só pressentida no meio do escuro.

Dezesseis anos, já é hora de assumir mais responsabilidades, não te trouxe só pra fazer companhia, era pra me ajudar a montar o armário, e o senhor me some e se não é a filha dos donos da casa ir te chamar, a gente se atrasava mais ainda para a volta. Sim senhor o quê, menino, onde diabos se enfiou, que foi que ficou fazendo a tarde inteira? A tarde inteira? Se perdeu por acaso, andando sem rumo para a menina demorar tanto a lhe achar e trazer de volta? Demorar tanto? A tarde inteira. Sim senhor o quê, criatura, tá no mundo da lua? Os coqueiros, o asfalto, o centro, a periferia, a estrada, o ruído do motor a diesel, a noite, a estrada, a noite, a estrada, a noite. Me ajuda aqui a guardar as ferramentas. Abre essa porta. Essa aqui, menino.

Como foi a viagem? Deu tudo certo, esse menino é que tá esquisito. Tião, que é que você tem? Chega aqui. Deixa eu ver. Tá queimando de febre. Que foi que vocês comeram por lá? Comemos nada, só café com leite e pão com manteiga já à noitinha.

Mãe? Que dia é hoje? É domingo, Tião. Que horas são? Quase meio-dia. Como é que eu dormi tanto? Você chegou queimando de febre, eu e seu pai te demos um banho morno, um anti-térmico e te enfiamos na cama. Está melhor? Mas eu não estive doente. Só com sono, muito sono. E dormi, e sonhei tanto que não sei mais o que foi que eu sonhei e o que foi que eu vi.

E o que foi que tu visse, menino? Nada não, mãe. Não sei. Vi o mar. Teu pai nunca me levou pra ver o mar. E aí, é bonito? É a coisa mais linda que eu já vi, mãe. A coisa mais linda que eu já vi. E a moça disse, a moça, que moça? Lá na praia, mãe, foi me chamar pra tomar café, na areia a moça riscava desenhos estranhos, que eu nunca tinha visto, até que escureceu e as pedras emergiam brilhantes e então o mar cobria tudo outra vez, e outra vez se afastava, ele não sentia os respingos no rosto, as ondas espumavam na língua, e marulhavam no peito, a cabeça vazia, vazia, os olhos viam os sargaços e o caranguejo sumindo na toca, os ouvidos ouviam o vento nas palhas dos coqueiros mas


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